Nas guerras, quando um exército sofre baixas e está enfraquecido, o adversário sabe que precisa aproveitar o momento para liquidar a disputa. É hora de agir rapidamente e atacar sem tréguas. Se deixar o inimigo voltar a reunir forças, poderá ter dificuldades para vencer depois. Em saúde pública a estratégia é a mesma. O combate à dengue é exemplo dessa premissa. O mosquito Aedes aegypti encontra no inverno o clima mais desfavorável para proliferar. Em quantidade reduzida, não consegue transmitir a doença com a mesma intensidade que na época do calor e das chuvas. Com o exército da dengue em baixa, o da saúde deve entrar em cena, arregaçar as mangas e ir à luta.
Neste ano o Estado de São Paulo já conseguiu reduzir os casos de dengue em mais de 90%. Uma vitória importante, fruto da ação coordenada de vigilância e controle de vetores desenvolvida pela Secretaria de Estado da Saúde em parceria com as prefeituras, além da grande mobilização da sociedade em torno do tema.
Entretanto, o perigo ainda ronda as cidades paulistas, principalmente naquelas onde a transmissão da dengue não foi interrompida nem mesmo agora no frio. Por isso o governo paulista preparou um ousado plano de combate ao mosquito transmissor a ser executado durante o inverno e a primavera, com o objetivo de aproveitar o período de baixa incidência da doença para adotar ações de prevenção e bloqueio em todo o Estado.
Trinta e três municípios receberão neste segundo semestre um contingente de 990 agentes estaduais para um trabalho de identificação e eliminação de criadouros do mosquito Aedes Aegypti, além de orientação à população. São cidades que tiveram alta transmissão de dengue em 2007 e 2008, ou, ainda, aquelas com grande fluxo de pessoas em razão de sua importância turística, comercial ou educacional.
A Secretaria ainda irá disponibilizar equipes especiais para “atacar” o mosquito em cidades onde a transmissão da doença persistir mesmo durante o inverno. Para essas ações serão contratados 120 novos agentes fixos vinculados à Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), dobrando o efetivo do Esquadrão Anti-Dengue criado no ano passado, além da aquisição de 60 novos atomizadores costais, 60 pulverizadores e 12 vans.
A proposta é que os profissionais entrem em campo assim que as vigilâncias epidemiológicas estadual e municipais identificarem transmissão de dengue em qualquer local do Estado nos próximos meses. Imediatamente os agentes irão se deslocar até o município para eliminar o mosquito Aedes aegypti adulto, que pica e transmite a dengue, e remover criadouros.
Em parceria com a Vivo, o governo estadual irá atuar para alertar a população sobre a importância de atacar o inimigo agora que ele está fragilizado. Serão enviados torpedos com mensagens de prevenção à dengue para quatro milhões de usuários de telefones celulares. O objetivo é relembrar os paulistas que o sucesso do combate à dengue depende fundamentalmente da colaboração de todos os cidadãos, pois 80% dos criadouros estão nos domicílios. A Secretaria também enviará 600 mil cartazes e panfletos com dicas para as lojas da empresa em todo o Estado.
Em outra frente, o Estado irá auxiliar as equipes médicas dos municípios a se prepararem para possíveis epidemias, garantindo atendimento adequado a pacientes com sintomas de dengue durante o próximo verão. O objetivo é estimular o diagnóstico precoce e evitar mortes pela doença. Serão priorizados 55 cidades, selecionadas por terem registrado maior transmissão de dengue por cinco anos desde 2000. Cidades com altas taxas de mortalidade nos anos de 2001, 2002, 2006 e 2007 também foram incluídas
Além de capacitação de profissionais de saúde municipais, a Secretaria irá auxiliar na melhoria da estrutura dos serviços, por meio da compra de kits para 200 mil hemogramas, aquisição de esfigmomanomêtros (para realização da “prova do laço”), cadeiras e equipamentos de hidratação, conforme a necessidade de cada município. Também está prevista a compra de microcomputadores para as vigilâncias epidemiológicas municipais a fim de agilizar o trabalho de notificação dos casos da doença e mais rapidamente desencadear as medidas de controle.
Todas essas ações têm como meta aproveitar o momento em que o Aedes aegypti está na defensiva para fazer uma grande mobilização no Estado com o imprescindível apoio da população, e, assim, reduzir ainda mais a incidência de dengue entre os paulistas no próximo verão.
O autor, Affonso Viviani Jr., é médico sanitarista, é superintendente de Controle de Endemias da Secretaria de Estado da Saúde