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Ciente do perigo, garotada usa cerol

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

O céu de Bauru estava lindo na tarde de ontem. Azul, sem nenhuma nuvem, perfeito para a garotada empinar pipas. Em alguns bairros, os pontinhos coloridos no horizonte deixavam a tarde ainda mais bonita. Beleza no céu, perigo no chão. Em poucos minutos, a reportagem do Jornal da Cidade flagrou meninos soltando papagaios com linha embebida em cerol. Proibido por lei, o cortante é muito utilizado para derrubar as pipas alheias. Mas o risco é grande para pedestres e principalmente motociclistas. Anteontem, uma mulher morreu após ser degolada por um linha com cerol em Sorocaba.

No Núcleo Geisel, um rapaz de 19 anos estava empinando uma pipa em um terreno. Perguntado se a linha que utilizava estava com cerol, ele não se fez de rogado. “Não tem outro jeito. Se você não usa, o pessoal corta tudo”, conta. O prejuízo não passa de R$ 0,50 mais a linha, mas o risco é grande. Nos últimos anos, dezenas de motociclistas de Bauru se machucaram após passar em vias onde crianças empinavam pipas com cerol.

Anteontem, em Sorocaba, a motociclista Evelin Aparecida de Araújo Sales, 23, foi atingida por uma linha com cerol quando trafegava pela rodovia Raposo Tavares. A pessoa que estava na garupa da motocicleta percebeu que algo aconteceu porque seu capacete foi atingido por um jato de sangue. Sales ainda conseguiu parar a motocicleta no acostamento, mas morreu no local.

O rapaz contou que sabe do risco de utilizar a mistura de vidro moído com cola, mas garante que procura brincar somente em terrenos, longe da movimentação de veículos. “Mas logo eu paro de usar cerol. Já estou ficando velho para empinar pipa”, admite.

A algumas quadras dali, um garoto de 13 anos empinava pipa. Ele contou que aproveita as férias da escola para brincar. E também não negou que sua linha estava toda embebida com o cortante. “Eu até tenho medo de machucar alguém. Por isso venho aqui, que não passa carro, nem moto”, conta. Ele estava num descampado também no Núcleo Geisel.

O garoto confessou que sabe da proibição do cerol. “Já tive minha linha pega pela polícia”, reconhece. Mesmo assim, não pretende abandonar o cortante. “Se eu ficar sem, o pessoal ‘laça’ a minha pipa”, explica. Poucos metros ao lado, um colega dele de 12 anos tentava colocar sua pipa no céu. Porém, ele não estava com cerol e fez questão de mostrar à reportagem, passando a linha pelos dedos.

Ele confirmou que já tinha usado o cortante, mas após se ferir com o cerol, abandonou a mistura. “Eu peguei uma pipa que tinha sido cortada e o dono, um menino bem maior que eu, não gostou. Ele puxou a pipa que estava na minha mão e eu me cortei”, lembra. Além disso, sua família reprova a mistura. “Se eu usar, minha mãe falou que me bate”, conta. E mesmo empinando sua pipa sem cerol, ele não teme ficar sem o brinquedo. “Não é nada. É só papel e bambu”, diz.

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Apreensões

O subcomandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPMI), major Wellington Venezian, destaca que o Centro de Operações da PM (Copom) recebe diariamente uma média de 20 denúncias sobre crianças empinando pipas com cerol. “Com as férias escolares, o número de chamadas sobe muito. Pelo risco que oferece e lesões que pode provocar, o cerol já virou caso de saúde pública”, avalia.

Para combater o uso do cortante, a PM intensifica as apreensões principalmente em eventos que possibilitam a aglomeração de crianças soltando pipas. No aniversário da cidade, comemorado em 1.º de agosto, é muito comum jovens brincando com os papagaios no Parque Vitória Régia. “Antes do evento fazemos divulgação sobre a proibição do cerol e, no dia, intensificamos a ação”, explica. No ano passado, por exemplo, a PM recolheu 350 pipas com o cortante.

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