Não passa um dia sem que alguém me pergunte se sou candidato. Quando respondo que não, sinto um ar de decepção resignada no perguntador. Não por uma suposta idéia de credibilidade política. Muito pelo contrário! O que acho é que o eleitor, em sua atitude, está deixando transparecer uma ponta de angústia. Outro dia fui abordado na Batista por um candidato, que, não sei se por timidez, falava tão baixo e olhando para os lados que mais parecia um vendedor de CD pirata. Desde os diretórios acadêmicos até a Assembléia do Cambui Futebol Clube, onde joguei bola, em Campinas, os instrumentos para a detenção ilegal do poder são os mesmos: marcar a eleição para a última hora, de preferência em dias chuvosos, ocultar ao máximo aos oponentes a relação dos eleitores ou cedê-la desatualizada, além, às vezes, de chegar até a provocar um apagão, quando as coisas não correm bem. Outro dia estávamos a abordar o tema em nossa rodinha costumeira, quando chegou um retardatário. Ele permaneceu quieto, por alguns instantes, escutando os comentários, mas por fim não se conteve:
- Afinal, do que vocês estão falando?
- Das próximas eleições, ora.
- Tenha dó! Pensei que falavam de alguma mudança na máfia italiana...
Rui Bertoti