A Polícia Federal mostra criatividade na denominação das suas operações. Geralmente culminam com prisões de “gente grossa”. Nenhuma causou tanto impacto como a Satiagraha. Mahatma Ghandi invocava esta expressão para realçar a necessidade do seu povo a uma atitude de “resistência pela verdade”. Ghandi queria que a Índia resistisse a todos os males da sociedade industrial e tecnocrática do Ocidente que a colonizara. A salvação da Índia, afirmava, reside na sua “capacidade de desaprender” os vícios trazidos pelos ingleses e que contaminam a maneira simples de viver do povo. A civilização ocidental concentrara o poder nas mãos de uma minoria à custa dos interesses do maior número - acusava.
A corrupção, a fraude, a gestão fraudulenta, a evasão de divisas e o tráfico de influência nos foram trazidos pelo colonizador e as culturas hegemônicas. Pero Vaz de Caminha, na mesma correspondência a El-Rei de Portugal onde comunicou o descobrimento e posse de novas terras nas “Índias”, aproveitou para pedir um empreguinho para o genro. Nos Estados Unidos é chamada de “pork” a gordura eventualmente necessária para engraxar as engrenagens políticas. Essa gordura elevou o nosso colesterol, entupiu nossas artérias, comprometeu o coração da política brasileira. É preciso resistir à corrupção pela verdade, nem que seja imposta pela Polícia Federal.
Quem sabe esse autoritarismo esclarecido possa encarnar os mesmos ideais de mudança de Ghandi, fazendo o povo e seus governantes crerem que é possível viver honestamente. A sociedade brasileira começa a se dar conta das ilicitudes cometidas por um dos mais destacados gestores de recursos do País, Daniel Dantas. O banqueiro começou a ganhar dinheiro no tempo das privatizações de F.H.C, pelo qual foi recebido com jantar em palácio. Passou pelas rebarbas do mensalão assessorado por José Dirceu. Ajudou no fluxo do propinoduto de Marcos Valério. Uma tragédia tucano-petista.
Naji Nahas faliu a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro com suas especulações mafiosas e nem por isso foi punido. O ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta havia sido secretário de Finanças de Maluf na Prefeitura de São Paulo, ocasião em que se detectou superfaturamento das obras do complexo viário Ayrton Senna e da Avenida Águas Espraiadas. Ao suceder Maluf na Prefeitura, o até então desconhecido Pitta notabilizou-se por outra seqüência de escândalos, tais como a emissão de títulos municipais acima do permitido e abusivo desvio de recursos na construção do fura-fila. Esse sistema de transporte urbano estava orçado em R$ 146 milhões. Pitta torrou R$ 800 milhões e permanece inacabado. Brigou com Maluf, provavelmente na divisão do butim. O ex-prefeito pagou o preço de ter se juntado ao investidor Naji Nahas, a quem delegou a função de intermediário na movimentação da conta aberta em banco sediado em Nova York.
Agora estamos diante de valores em conflito. Dantas e alguns dos acusados de desvios de verba pública, corrupção e lavagem de dinheiro foram soltos, por ordem do Supremo Tribunal Federal e presos de novo. Há uma nítida queda de braço entre o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF que autorizou a soltura, e o conceito da Polícia Federal de “fazer justiça”. Sem entrar no mérito da legalidade da concessão do hábeas corpus registre-se que Mendes já havia tachado outras ações da PF, ao expor acusados, vazar informações sigilosas, de “gangsterismo”. Seria uma boa razão para que o próprio Mendes se declarasse impedido de examinar o requerimento jurídico pela liberdade dos detidos. Louve-se a velocidade com que trabalhou o ministro. A Justiça é conhecida por sua lentidão no País, a ponto de uma doméstica ter permanecido anos atrás das grades pela tentativa de roubo de um frasco de xampu no supermercado.
Durante os ritos védicos, na Índia o povo apresenta-se diante do sacerdote brâmane que coloca na fronte de cada crente uma mancha vermelha de pó de cinábrio, aquele “terceiro olho” que vê a realidade para além das aparências. Quem sabe esteja nos faltando esse olho para enxergar aqueles que impedem a sociedade de avançar ética e moralmente.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC