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Para assaltantes, porta dos fundos é serventia da casa

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Em Bauru, a porta da cozinha é serventia da casa para os bandidos. Levantamento feito pelo comando da Base Comunitária de Segurança Oeste da Polícia Militar (PM) constatou que aproximadamente 70% das invasões a residência registradas naquela região da cidade costumam ocorrer pela entrada dos fundos. Seria porque, esfomeados (sinal dos tempos), os delinqüentes estariam tentando assaltar as geladeiras de cidadãos de bem?

Na avaliação do comando do 4.º Batalhão da PM do Interior (4.º BPMI), existe uma razão de ordem prática para os ladrões agirem dessa forma: pais de família e donas de casa costumam ser extremosos nos cuidados com as áreas externas e as entradas frontais dos lugares onde moram; por outro lado, são desleixados com a segurança das janelas laterais e das portas dos fundos de suas residências.

“Em geral, as pessoas costumam colocar fechaduras e travas menos resistentes nos acessos externos situados nos fundos das residências”, explica o comandante interino do 4.º BPMI, major Nelson Garcia. Outro aspecto, que, na opinião dele, ajuda a tornar as portas dos fundos mais vulneráveis à ação dos ladrões, é o fato dessas entradas estarem situadas em partes do imóvel que são pouco visíveis às pessoas em geral.

“Geralmente, os fundos de uma residência dificilmente podem ser avistados pelas pessoas que moram em uma vizinhança. Com isso, as chances do marginal se sair bem sucedido de um furto aumentam bastante”, pondera Garcia.

Individualismo

Por falar em vizinhança, um alerta para aqueles que preferem viver isolados do resto do mundo: na opinião das autoridades, quem mora ao lado não é o perigo, mas sim a segurança. “Quando as pessoas que vivem próximas se conhecem e sabem dos hábitos umas das outras, fica mais fácil para todos identificar quando alguma atividade suspeita está sendo desenvolvida na vizinhança”, avalia Garcia.

O consultor de segurança Maurílio Flávio Gamba, que atua há 15 anos no mercado, lembra que a existência de uma rede de solidariedade entre vizinhos é um dos fatores que, de certa forma, ajudam a inibir a ação de ladrões em bairros pobres.

“Em uma comunidade carente, os moradores conhecem a rotina uns dos outros. Se algum indivíduo de fora chega a esses locais, logo são identificados”, diz ele. Nos bairros de classe média e alta, onde impera a cultura do cada um por si, as pessoas acabam ficando largadas à própria sorte - ou quase, já que os ricos costumam contar com o apoio providencial das empresas de segurança privada.

Aos cidadãos de classe média, que podem menos, resta então a opção de chorar mais? Nos últimos tempos, a PM tem se esforçado para tentar mudar essa situação por meio do Projeto Vizinho Solidário. A iniciativa consiste, basicamente, em reuniões entre moradores de determinadas áreas da cidade, promovidas pelas bases de segurança comunitária.

“Isso é uma chance para que os moradores de um bairro ou quarteirão fiquem se conhecendo melhor. Quando um viaja, o outro fica de olho na casa, recolhe os jornais e a correspondência e pode até chamar a polícia no caso de alguma eventualidade”, afirma Garcia.

Mas será que só a solidariedade da vizinhança basta para coibir a ação dos criminosos? Por via das dúvidas, a PM - responsável por cuidar da parte ostensiva e preventiva da segurança pública - tem reforçado suas ações em pontos considerados críticos da cidade (que registram maior número de ocorrências).

Não que isso baste aos olhos da população. Prova disso é que, nos últimos tempos, a procura por profissionais como Maurílio tem aumentado mais e mais. “Todos temos a possibilidade de sofrer algum tipo de violência, só que a maioria de nós não faz conta desse risco. Boa parte das pessoas que vêm atrás do meu serviço o fazem depois de vivenciar algum tipo de situação de perigo iminente”, explica o consultor.

Viver em constante estado de alerta (mas sem incorrer em paranóias) e reduzir ao máximo os pontos de vulnerabilidade do lugar onde moram (e da vida em geral) - isto é o que, basicamente, os cidadãos de bem costumam aprender com Maurílio Gamba.

Alarmes e serviços de monitoramento são outros “produtos” cuja procura tem andado em alta em Bauru, nos últimos tempos. Seria sinal de que as pessoas estão se sentindo mais inseguras? Ou elas, enfim, se deram conta de que a segurança pública - conforme costumam lembrar os PMs, numa alusão ao artigo 144 da Constituição Federal - é dever do Estado e direito e responsabilidade de todos?

A discussão em torno desse tema é longa. Dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública apontam que, nos três primeiros meses deste ano, ocorreram 1.596 furtos em Bauru, além de 271 roubos e 115 furtos de veículo.

No mesmo período do ano passado foram registrados na cidade 1.335 furtos, 215 roubos e 115 furtos de veículos. A quantidade de homicídios dolosos ocorrida em Bauru cresceu de quatro, nos três primeiros meses de 2007, para nove entre janeiro e março deste ano.

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