Aumento do custo de vida, indexação, disparada dos preços das commodities, expressões que pareciam estar perdidas em um passado longínquo (da época em que éramos obrigados a conviver com taxas de inflação de até 40% ao mês), de repente, voltaram a rondar o dia-a-dia dos brasileiros.
Em meio à preocupação causada pela recente turbulência, economistas são convocados para tentar explicar os aumentos de preços e (quem sabe) fazer previsões a respeito da crise: se será duradoura, se irá piorar ou se não passa de uma pressão momentânea.
O problema é que o “economês” é um idioma complicado, infinitamente mais difícil se de aprender do que o inglês ou o português, e muita gente acaba ficando com impressões parciais ou mesmo errôneas sobre o assunto. Boa parte das pessoas não sabe até agora, por exemplo, se a pressão inflacionária atual pode ser comparada, em termos de magnitude, ao que se viu na América Latina nos anos 80.
Muita gente, aliás, não sabe sequer o que é inflação, nem como “funcionam” os instrumentos criados para calculá-la. As pessoas não fazem idéia, inclusive, de que esse processo, aparentemente neutro, esconde um complexo mecanismo de transferência de renda das camadas pobres da população em favor dos mais ricos.
“Basicamente”, explica o economista bauruense Reinaldo César Cafeo, vice-diretor da Faculdade de Economia da Instituição Toledo de Ensino (ITE), “inflação pode ser descrita como uma alta geral e contínua dos preços. Ela pode ser provocada tanto do lado de quem vende - que por algum motivo (aumento dos custos de produção, por exemplo) repassa estes aumentos para os consumidores - quanto de quem compra, como quando as pessoas mudam seus hábitos e passam a adquirir mais produtos do que faziam no passado.”
Alguns fatores poderiam explicar (uns mais, outros menos) a pressão inflacionária dos dias de hoje. “Por um lado, é verdade que o mundo todo está consumindo mais, uma vez que países emergentes, como o nosso, conseguiram aumentar a oferta de emprego para suas populações; com isto, quem antes não tinha acesso a alimento, de repente passou a ter”, diz Cafeo.
Outro aspecto que tem ajudado a pressionar os preços da economia é o aumento dos custos das empresas, por conta, principalmente, da elevação do valor das commodities - itens de grande relevância no comércio mundial, como soja, milho, feijão ou minério de ferro - no mercado internacional. Nos últimos meses, o preço do barril do petróleo tem estado em níveis astronômicos (chegou a US$ 145 dias atrás), a despeito das recentes descobertas de jazidas registradas em diferentes locais do globo (entre elas, as ocorridas no litoral brasileiro, na Bacia de Santos) e do anúncio feito por países como o Irã, de que aumentariam sua produção diária para atender à crescente demanda global.
“Com o petróleo mais caro, o valor do frete cresce e as empresas se vêem obrigadas a repassar esse aumento para os consumidores”, lembra Cafeo. Mas qual a razão para a escalada do preço do petróleo e das demais commodities?
Seria a contínua expansão da economia chinesa, com seu apetite voraz por matérias-primas de energia, a única razão para o aumento do preço do “ouro negro”, do milho e da arroba do boi gordo? Ou a causa para tais elevações estaria relacionada ao avanço dos biocombustíveis sobre as terras antes ocupadas por culturas voltadas à alimentação humana?
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Privatização
Considerada quase uma palavra-tabu, em meados dos ano 90, época da implantação do Plano Real (que trouxe estabilidade à economia do País), a reindexação acabou sendo ressuscitada pelas mesmas pessoas que, em princípio, se diziam dispostas a combatê-la com unhas e dentes.
O processo de privatização da empresas estatais (iniciado no governo de Fernando Collor de Mello e acelerado a partir de 1996, na gestão de Fernando Henrique Cardoso) fez com que o mecanismo, antes rejeitado (visto que ajudava a alimentar o processo inflacionário), fosse reintroduzido na economia brasileira.
“Essa foi uma estratégia utilizada pelo governo para tornar as companhias atrativas aos olhos dos compradores. Com o tempo, porém, isso passou a trazer efeitos negativos para a economia, pois os índices usados para reajustar os preços dos serviços prestados por essas empresas são muito sensíveis à variação dos valores do dólar e das commodities”, afirma a professora do curso de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maryse Farhi.