Apesar de a pressão inflacionária dos últimos meses inspirar preocupação em governos, investidores e consumidores pelo mundo afora, a maior parte dos economistas acredita que a situação atual da economia está longe de ser desesperadora. “O processo atual não é generalizado. Não vivemos um descontrole inflacionário, como o registrado antes de 1994 (ano da implantação do Plano Real)”, acredita o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) André Braz.
A professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maryse Farhi lembra que os fundamentos da economia brasileira são bastante diversos dos existentes nos anos 80 e em parte da década de 90.
“É preciso se levar em conta que, naquela época, já havia um processo inflacionário instalado na América Latina. Esse quadro acabou se agravando, no decorrer do tempo, devido à introdução da correção monetária, que generalizou o processo de reindexação da economia”, explica.
“Também não podemos nos esquecer de que, nos anos 80, a América Latina se encontrava em um processo de degradação de suas contas externas. Hoje, esse cenário mudou muito. No Brasil, a relação entre o Produto Interno Bruto (PIB) e a dívida externa está em níveis bem baixos, e isso nos permite atravessar este período de turbulência com relativa tranqüilidade”, conclui Farhi.
Taxa de juros
André Braz acredita que o governo dispõe de mecanismos capazes de controlar a pressão inflacionária. “O aumento da taxa básica de juros da economia, por exemplo, é uma medida que pode ajudar a conter a escalada dos preços”, salienta. A taxa básica de juros é o percentual que o governo brasileiro (hoje em 12,25% ao ano) paga pelos empréstimos que obtém junto aos bancos com a venda de títulos públicos. Ela serve de referência para as demais taxas de juros em vigor no País.
As variações positivas ou negativas dessa taxa trazem reflexos diretos à atividade produtiva. Quando ela oscila para baixo, as pessoas passam a ter menos acesso a crédito, consomem menos, e a economia se aquece.
Se ela sobe, porém, os consumidores passam a gastar menos, e a atividade produtiva do País cai. Com menos dinheiro circulando no mercado, os preços das mercadorias acabam, em tese, caindo.
Mas por que em tese? “A crise que vivemos nos dias de hoje está fortemente ligada a aumentos de preços no mercado internacional. Ora, se esses preços são gerados lá fora, e não aqui, que influência o aumento da taxa básica de juros brasileira poderá ter sobre essa pressão inflacionária?”, questiona Maryse Farhi.
Ela pondera, todavia, que a elevação da taxa básica de juros tende a criar uma apreciação do real frente ao dólar. “Na medida em que nossa moeda passasse a valer mais, isso acabaria compensando a elevação dos preços das commodities no mercado internacional”, explica. Além disso, com a economia desaquecida, muitas empresas e prestadores de serviço evitariam repassar aumentos de custo para o consumidor. “A dona do salão de beleza pensaria duas vezes antes de elevar o preço do corte de cabelo”, diz ela.
Atualmente, a meta de inflação definida pelo governo federal é de 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais, tanto para cima quanto para baixo.