Esportes

Diários de Motocicleta – Parte 2

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 9 min

Na reportagem de domingo passado, o JC contou a primeira parte da “saga” do universitário bauruense Alexandre Munhoz de Freitas pela América do Sul montado em sua motocicleta. Naquela matéria, Munhoz relatou como foi conhecer alguns dos pontos turísticos e arqueológicos mais famosos do mundo, como a cidade inca de Macchu Picchu e os intrigantes geógrifos de Nasca, além de vagar por inúmeras estradas em meio a desertos e pisos batidos de terra e de cascalho.

Na edição de hoje Munhoz conclui sua aventura pelo continente - foram mais de 10 mil quilômetros - contando como foi encarar a desafiadora “Estrada da Morte”, na Bolívia, a visita ao maior salar do mundo, os amigos feitos pelo caminho, o “suborno” pago a um guarda argentino e o retorno ao País.

O bauruense também dá dicas dos cuidados a tomar para aqueles que ensaiam enfrentar um desafio enorme em duas rodas.

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Estrada da morte

Após a travessia de aproximadamente trinta minutos, a bordo de uma balsa cujo piloto, numa mão, controla a direção e, na outra, “opera” com habilidade uma pequena caneca de alumínio para devolver ao Titicaca a água que aos poucos insiste em invadir a embarcação, navegando sobre uma profundidade que pode chegar a 250 metros, o viajante finalmente atraca em solo boliviano e pode seguir viagem à capital mais alta do mundo. La Paz, apesar de ser a principal cidade, também ostenta, em sua periferia, aspectos semelhantes aos vilarejos em meio ao trajeto. “A primeira impressão é de sujeira. A falta de saneamento na cidade é latente, exceto no centro”, observa o universitário, que, na altitude boliviana, bebeu a iguaria que já causou polêmica entre os brasileiros. Utilizado pelos nativos para minimizar os efeitos da altitude, o chá feito com folha de coca, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, num jogo entre Brasil e Bolívia, fez com que o então goleiro reserva brasileiro, Zetti, fosse surpreendido no exame antidoping após a partida. Mitos e verdades a parte, o bauruense minimiza a polêmica acerca da bebida. “Você compra o chá e a folha livremente e, particularmente, não senti isso que falam”, testemunha.

Saindo de La Paz, ele percorreu os 63 quilômetros da temida “la carretera de la muerte” (estrada da morte), que serpenteia a cordilheira, ligando a capital da Bolívia ao povoado de Yungas, em um espaço estreito o suficiente para pouco mais do que um carro passar. “Vale a pena pela paisagem e aventura”, recomenda o motociclista, cirando curvas fechadas, passagens estreitas à beira de imponentes penhascos, em trecho de chão batido com cascalho, rota “adornada” em sua margem por uma infinidade de pequenas cruzes.

“Cerca de 250 pessoas morrem, anualmente, ao tentar cruzar a estrada”, enumera Alexandre, que, após ziguezaguear pela temida rodovia, retornou à La Paz, para desfrutar da hospitalidade e reciprocidade dos bolivianos com os visitantes brasileiros. “Muitos querem saber sobre a cultura brasileira”, comenta o motociclista, impressionado com o caos no trânsito de La Paz, ainda maior do que nas grandes cidades brasileiras. “A rusticidade é completada pelo trânsito caótico, sem qualquer organização. É uma cidade com alto índice de poluição, acentuada pelo ar rarefeito da altitude”, acrescenta o viajante, hospedado em hospedaria, no mínimo “rústica”.

“O hotel, sem restaurante, é de banheiro coletivo. Na parede, os telefones das prostitutas”, detalha o brasileiro que jantou em restaurante supostamente chinês durante passagem pela Bolívia. Faminto e ansioso para seguir viagem no dia seguinte, Alexandre achou “prudente” não perguntar sobre a procedência do bife com arroz que engolira antes de dormir.

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O maior salar do mundo

Uyuni, cidade turística no meio do deserto, abriga o maior salar do mundo. Com 12 mil quilômetros quadrados, a reserva de sal chega a variar de 2 a 20 metros de profundidade. A vastidão branca toma conta de toda a paisagem. “Óculos de sol são indispensáveis para proteger a visão. O sal não incomoda os olhos, mas sim a imensa superfície branca”, recomenda o viajante, comparando o visual do salar às paisagens nevadas. O universitário explica que a imensa reserva foi formada há milhões de anos e que o sal é oriundo do que um dia abrigou grandes lagos de água salgada. “O salar é fruto do processo de destilação com a evaporação dessa água que aí existia”, ensina Alexandre, ilustrando a explicação com fósseis de corais e peixes, comuns em meio ao “deserto de sal”.

O calor humano aquecia as noites frias. Curtos, porém intensos laços de amizade foram estabelecidos em Uyuni. Acompanhado por um amigo chileno, outro uruguaio, junto a um companheiro argentino, o grupo, acrescido por três animadas norte-americanas, todos aventureiros, adentrou a madrugada regada a muita música, eclética como os participantes da noitada. “Misturamos música brasileira, tocada ao violão, com o som nativo de uns bolivianos que estavam no bar”, comenta, sem disfarçar a pequena tristeza da despedida. “Apesar da animação dá uma pontinha de tristeza ao saber que dificilmente veremos os amigos novamente”, admite o bauruense, que, após a noitada, ainda teve fôlego para acelerar a Yamaha repleta de adesivos com bandeiras alusivas aos países sulamericanos, rumo à quarta nação de seu roteiro – a Argentina.

Antes de chegar a pátria do tango e de Evita Perón, o bauruense ainda enfrenta 300 quilômetros de estrada cascalhada, cruzando legítimas cidades fantasmas, vítimas do êxodo motivado pela escassez de recursos naturais sentida pelos povos cujo garimpo ou extrativismo é o caminho para a sobrevivência.

Na fronteira da Bolívia com a Argentina, um exercício de paciência. “Tive de esperar quatro horas para entrar em território argentino. Os guardas da aduana celebravam uma espécie de aniversário daquele posto, com direito a festas, discurso, comes e bebes. Após a comemoração é que voltaram a atender o público”, recorda, rindo da burocracia festiva.

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‘Contribuição’ salgada

A entrada na Argentina é acompanhada pelo retorno do asfalto. Mesmo assim a prudência ainda é companheira indispensável ao viajante. “Nesse trecho, somos aconselhados a não viajar durante a noite, por causa do gelo que invade a pista”, detalha o motociclista, que parou após ser aconselhado por moradores locais. “Os argentinos são muito cordiais. A rivalidade fica por conta apenas do futebol”, acentua.

O clima amistoso, no entanto, não impediu que Alexandre passasse por uma situação que remeteu à sua passagem pelo Peru. Após percorrer milhares de quilômetros pela região conhecida como “Pampa del Infierno”, ele foi parado por um policial rodoviário e levou mais que um simples “puxão de orelhas”. “Eu estava acima da velocidade permitida”, confessa. “O policial me disse que o máximo era 40 quilômetros e eu estava entre 50 e 60”, diz. “Era um domingo e a multa, de acordo com o policial, poderia ser expedida na segunda e quitada apenas a partir de terça-feira. Eu perderia muito tempo”, relata.

Foi aí que, segundo o motociclista, o guarda “sugeriu” uma forma de resolver o problema de forma instantânea. “Ele me sugeriu ‘una pequena contribuición’, diverte-se o viajante, que desembolsou US$ 35 ao “gentil” oficial. “Tirando esse episódio, os policiais argentinos sempre foram muito solícitos, curiosos com minha viagem e felizes por um brasileiro se interessar pela cultura do país”, ressalva o viajante.

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‘Eu te amo meu Brasil’

Prestes a retornar ao País, pelo Estado do Paraná, o viajante refletia sobre o que aprendeu. Curiosamente, apesar de conviver com outro lado da moeda de pontos turísticos famosos, outros nem tão difundidos, do continente, a novidade que dava o tom era o valor ao que está dentro de casa. “Quando a gente está perto da fronteira, voltando ao nosso País, apesar da ânsia em conhecer novos lugares, a gente só pensa em voltar para nossa terra”, admite. “Uma das maiores lições da viagem foi poder observar como o nosso país é rico, principalmente em fartura de alimentos”, exemplifica. “Somos do terceiro mundo, mesmo assim o Brasil é um país fantástico”, empolga-se o viajante, que atravessou o Estado do Paraná, onde teve nova experiência com policial rodoviário.

Desta vez, a ética falou mais alto, para ambos os lados. “Eu fui parado por estar acima da velocidade. Quando a gente está perto de casa anda mais rápido”, justifica o mochileiro, que pagou a multa. “Jamais gostaria de ter problemas, ainda mais no final da jornada. Tentei argumentar com o policial, expliquei minha trajetória. Ele compreendeu, mas se mostrou irredutível quanto à autuação. Acatei sem discutir”, conscientiza-se.

Uma rápida parada ao lado de uma placa que indica a quilometragem restante para Bauru, na rodovia João Cabral Baptista Rennó (SP-225), na região de Ourinhos, para uma das últimas fotografias que ilustram o grosso álbum da viagem, relatada também num diário manuscrito, e Alexandre chegava, finalmente, ao “coração” do Estado de São Paulo”. Na bagagem, a principal lição: “Saí rumo aos pontos turísticos mas o que mais me encantou foram as pessoas. As necessidades do caminho me fizeram perceber como é importante se comunicar com todos ao redor, sempre com cordialidade e respeito”, testemunha o viajante, cuja solidão da estrada foi peça chave para a valorização do ser humano independentemente de posses ou condição social. “No deserto, quando se desliga a moto e é possível sentir aquele silêncio absoluto em meio à imensidão, é indiferente se você é o cara mais rico ou mais simples do mundo. Não importa, ali é tudo igual”, define.

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Caia na estrada

Com alta quilometragem, Alexandre aconselha a aventureiros de “primeira viagem” a caírem na estrada. Integrante do Clube XT 600, fundado há cinco anos com objetivo de difundir o motociclismo e turismo de aventura entre antigos e novos adeptos, ele convida a curiosos para saber mais sobre suas experiências e a se juntar para novas aventuras. “Meu próximo objetivo é ir para a Colômbia e Venezuela pilotando uma ‘Biz’”, anuncia. Mais informações sobre o clube no email recusa@terra.com.br ou MSN alexandrext600@hotmail.com. “Temos contato no Brasil e em outros países, com a troca de informações sobre viagens, encontros e passeios”, incentiva Alexandre, que enumera alguns itens indispensáveis para uma aventura semelhante a que acabou de concluir:

• conhecimento básico de mecânica, para emergências

• dólar em espécie (quantia variante, de acordo com respectivo trajeto e plano de gastos)

• motocicleta alta, com suspensão apropriada à adequação em diferentes tipos de terreno, com mecânica o mais simples possível

• protetores de mão, guidão e motor

• peças de rápida reposição (velas de ignição, câmaras de ar, lâmpadas sobressalentes)

• bolsas impermeáveis

• barraca, saco de dormir e isolante térmico

• roupas impermeáveis e proteções para ombro, cotovelo e joelho

• botas, roupas de frio eficientes e que não causem grande volume

• informações detalhadas e antecipadas sobre o trajeto, por meio do estudo de mapas, documentação e costumes locais

• espírito de aventura

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