Não existe aqui nenhuma apologia ao álcool ou algo semelhante. Os números são claros, desde a criação da “Lei Seca” houve redução nos acidentes e mortes fatais no trânsito brasileiro. Que ela tenha vindo para ficar. Porém, esses mesmos números, que jamais mentem, nos mostravam que cerca de 52% dos acidentes são causados em função do álcool, portanto, e os outros 48%? Causou-me muita estranheza que nos últimos dias, tanto especialistas em trânsito quanto autoridades e a própria imprensa estejam tratando o assunto, ou seja, a falta do álcool, como sendo suficiente para resolver todos os empecilhos no trânsito brasileiro. Será que não foi estratégico, em especial aos órgãos governamentais, sedentos por eleições próximas, a adoção da Lei neste momento e tratá-la como a “salvação do trânsito”?
Será que esses 48% aproximadamente de acidentes graves ocorridos sem a utilização do álcool não se devem, em grande parte, pelo descaso dos governos estadual e federal na manutenção das esburacadas estradas brasileiras? Ou ainda pela falta de sinalização adequada nessas mesmas estradas? O que dizer também de acidentes graves e até fatais causados nas ruas municipais em função da má conservação do asfalto, fato tão comum em nossa abandonada cidade? Ou até mesmo da falta de manutenção no corte de árvores e mato que muitas vezes encobrem a sinalização? Será que também não aumentam as estatísticas de mortes no trânsito, os condutores que adquiriram habilitação de maneira, diríamos “duvidosa”, através de uma quadrilha desbaratada há pouco tempo, que envolvia policiais civis, delegados e servidores da alta cúpula no trânsito paulistano?
Será que também não engordam as estatísticas negativas do trânsito a falta de educação de boa parte do povo brasileiro, adquirida em escolas públicas de nível tão baixo que disponibilizam os governos estaduais e municipais à população? A quem interessa tratar o álcool como único responsável pelo trânsito caótico e assassino no nosso país? Devemos, sim, continuar combatendo o uso indiscriminado do álcool juntamente com a direção de um veículo, mas devemos também nós, imprensa, especialistas e opinião pública como um todo, cobrar das esferas governamentais a sua parcela de responsabilidade nesses acidentes que tantas vidas tiram dos brasileiros.
Mário Frenhe Júnior - RG 18.480.138