Ingrid Betancourt revelou seu grande desejo depois de seis anos de cativeiro: um banho “caliente”. Prova de que o banho continua sendo um dos grandes prazeres e anseios do ser humano que muito antes de Cristo já emergia em tinas para “purificar” o corpo e a alma.
Mas o ritual como o conhecemos hoje, sob a água corrente do chuveiro, com espuma de sabonete, é coisa recente, que só chegou ao Brasil depois da Primeira Guerra Mundial, através da Unilever, responsável pela introdução da primeira barra de sabonete no mercado, em 1932. Um sucesso!
Décadas e décadas passaram e novos produtos foram sendo lançados, oferecendo muito mais do que a promessa de limpeza: o de tratar a pele, por conta de emolientes contidos em novas fórmulas. Caso dos sabonetes líquidos com pH neutro, ou seja, com formulação mais próxima ao da pele, garantia de preservar a hidratação natural e evitar o ressecamento.
Por conta desse “boom” no mercado, a Unilever lançou no último dia 28 de junho, no Hotel Hyatt, em São Paulo, sua nova linha de sabonetes líquidos, reunindo jornalistas especializados, a âncora Mônica Waldwogel, a dermatologista Ana Lucia Récio, a esteticista Roseli Siqueira e a jornalista e a escritora Renata Ashcar, autora do livro “Banho: História e Rituais” (Editora Grifo), em uma palestra bastante esclarecedora sobre o ritual sagrado.
Renata, que também escreveu o “Guia de Perfumes” (Duetto Editorial), é correspondente internacional da revista “Cosmetic News” e responsável pela criação do Espaço Perfume Arte & História, Museu de Perfumes, dedicado à história e à arte da perfumaria. No evento, ela detalhou aos presentes que o banho, seus rituais e significados acompanham a humanidade desde as civilizações mais antigas.
“Ao longo da história, o banho assumiu diferentes usos e formas. Já foi sagrado e já foi profano, receita de saúde ou causa de morte, diversão para as massas ou privilégio de reis...”, apontou.
Além disso, o banho também serviu para os encontros sociais, uma vez que a vida nas antigas civilizações viravam em torno da água.
Renata relembrou a história do banho, explicando que a vida começa na água. “A necessidade dela fez com que as primeiras civilizações surgissem ao redor dos rios. Nas mais distantes culturas, ela é associada a deuses e poderes mágicos de cura e purificação, criação e renascimento. Buda, Confúcio, Manu, Moisés pregaram suas virtudes – além de limpar o corpo, a água pode lavar a alma”, complementou a escritora.
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Cleópatra, gregos e romanos
Há cerca de 2.000 a.C., os egípcios lavavam-se ao menos três vezes por dia. Usavam jarros e bacias com água corrente fresca para se banhar – a água parada, que podia transmitir doenças, era desaconselhada. Cinzas, argila e natrão, uma mistura de sal e bicarbonato de sódio, faziam as vezes de sabonete.
Os gregos – cerca de 800 a.C. – também relacionavam mitos e deuses à água. O banho era privado, às vezes dentro de uma banheira rasa de pedra. Em 600 a.C., os homens treinavam com atletas, e os banhos ganharam popularidade ao relaxar músculos e revigorar mentes. Surgiram os primeiros banhos públicos.
Em 100 a.C. os romanos descobriram com os gregos o prazer de alternar banhos frios e quentes. Aquedutos se popularizam, alimentando banhos públicos e privados. O abastecimento contínuo de água permitiu também que surgisse a tecnologia do aquecimento.
Redes privadas de água enchiam piscinas, alimentavam fontes e tornavam os banhos, inclusive de vapor, um prazer constante. Roma se tornou a capital mundial do banho e jamais na história ele foi uma prática tão intensa como nesse período.
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A igreja, a peste e o banho a seco
Durante a Era Cristã, um inimigo bateu às portas das casas de banho. “Nenhum inimigo foi tão fatal”, explica Renata Ashcar, autora do livro “Banho: História e Rituais” (Editora Grifo). “A Igreja combatia os banhos públicos, símbolos de luxúria, orgulho, preguiça, vaidade, gula e cobiça. A ascensão da moral cristã e a queda do Império fizeram com que gradativamente os banhos fossem abandonados”, aponta.
Entre os séculos 14 e 15 é o medo da água tomou conta da população. “Em 1347, a primeira onda da peste negra chegou à Europa, em uma epidemia que dizimaria um terço da população do continente até o século 18. E, com ela, o medo de um mal invisível que poderia estar em qualquer lugar – até na água”, relata a escritora.
A peste bubônica faz seu primeiro milhão de vítimas e o pavor pelo contágio se alastrou ainda mais. Na época, os médicos recomendavam às pessoas fugir dos banhos.
Nos séculos 16 e 17 os banhos voltaram a ser proibidos novamente. Primeiro em Paris e depois em toda a Europa. “A água foi quase suprimida do cotidiano e a toalete passou a ser seca”, aponta Renata.
E em vez de se lavar, os franceses e os europeus friccionavam a pele com pano perfumado. Água, só para lavar a boca, mãos e rosto, as partes visíveis.” A partir do século 17, trocar de roupa tornou-se praticamente o mesmo que se lavar”, complementa.
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Os muçulmanos: limpíssimos
Cada cultura sempre associou o banho de uma forma: religião e purificação do corpo. Renata Ashcar, autora do livro “Banho: História e Rituais” (Editora Grifo), cita dois rituais muito interessantes: o Hammam criado pelos muçulmanos e o indiano Kumbh Mela, praticados até hoje.
“O Hammam é a ocasião em que os muçulmanos acomodam dentro de si a sexualidade e a religião. A limpeza é um preceito islamita. Faz parte da fé lavar, perfumar e purificar o corpo para a prece. Vestígios de toda e qualquer excreção corporal são rigorosamente apagados e, embora seu aspecto religioso seja muito forte, vários rituais de beleza estão associados a sua prática”, explica a escritora.
Já o Kumbh Mela é um festival religioso hinduísta que acontece a cada 12 anos em uma das quatro cidades escolhidas, onde os indianos mergulham nas águas do rio Ganges para se purificarem de seus pecados e rezarem para ser dispensados do ciclo eterno da reencarnação.
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O banheiro moderno
O banheiro atual surgiu no segundo terço do século 19, na Inglaterra, sendo seguido pelos Estados Unidos: sala branca, com chuveiro e cortinas.
No século 20, aulas de asseio passaram a fazer parte dos currículos escolares com a incorporação do abastecimento privado de água. “Nos anos 30, a regra era tomar um banho por semana, geralmente aos sábados”, explica Renata Ashcar, autora do livro “Banho: História e Rituais” (Editora Grifo).
A partir da Segunda Guerra Mundial, a água encanada chegou a mais cidades e os banheiros passaram a ser construídos para uma pessoa e não para um grupo, valorizando a privacidade. Nas últimas décadas, o banho tornou-se freqüente e de corpo inteiro. O primeiro sabonete foi lançado em 1913, pela então Unilever. A marca Lux veio logo em seguida, em 1924, nos EUA. No Brasil, chegou em 1932.
*A jornalista viajou a convite da Unilever (Lux).