O geógrafo Milton Santos construiu um pensamento lúcido diante de um universo globalizado que ele mesmo denomina de globalitarismo. Para esse neto de escravos, o globalitarismo é um sistema econômico que provoca a concentração de riqueza entre os ricos e distribui mais pobrezas para os já menos favorecidos. O filme “Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá”, de Silvio Tendler, foi realizado pouco antes da morte de Milton Santos e nos oferece o privilégio de contemplar um dos gênios que o Brasil já teve e receber uma lição realista e otimista sobre as desigualdades entre o norte rico e o mundo do sul saqueado.
Nele nós descobrimos algo que está muito à vista: nunca houve humanidade. Esta palavra demasiadamente utilizada é uma construção ideológica para camuflar as diversas divisões que realizamos em nosso cotidiano particular e nas estruturas nacionais e internacionais. Porém, o geógrafo negro nos entusiasma constatando que, apesar de tudo, estamos no ensaio do que seja humanidade e isso talvez seja concretamente um passo para realmente criarmos uma noção mais realista entre o bem e o mal.
O bem e o mal são, na verdade, criações humanas. Ao nascer, o ser humano inicia um processo civilizatório. Desde o momento que começamos a tomar consciência de nós mesmos e do mundo, vamos assimilando, através de uma determinada educação, os valores de nossa civilização. Assim, o ser humano aprende as noções de bem e de mal. Isso significa que todo processo civilizatório é excludente. Nele, aprendemos a condenar determinados comportamentos e a valorizar outros.
Desta forma, à medida que amadurecemos, vamos controlando e trabalhando nossos impulsos para que possamos resolver nossos problemas dentro dos parâmetros que determinamos como o bem. Portanto, sob os nossos olhos de adultos, de pessoas que já estão mergulhadas em uma civilização, as crianças são simplesmente más, pois ainda não conseguem segurar seus impulsos. A criança é normalmente egocêntrica, intolerante e reage de forma agressiva quando sente “seu mundo” invadido ou ameaçado.
Aos poucos, a criança aprende a trabalhar seus instintos tornando-se um ser “civilizado”. Este aprendizado é fundamental, pois a criança compreende, através dele, as regras do jogo na vida adulta. Na verdade, como afirma Flávio Gikovate, o bem é uma sofisticação da razão. Porém, no universo adulto, aquilo que é chamado de bem nem sempre representa os comportamentos que possibilitam a vida de todos.
Justamente por isso, o fundamental no processo civilizatório são os valores que nos fazem compreender o bem que devemos valorizar e a civilização que desejamos construir. Neste aspecto encontramos um grande problema em nossa contemporaneidade: vivemos uma crise de todas as instituições. Não há instituição que não esteja no momento vivenciando uma crise de valores e, por sua vez, de atuação na sociedade.
Porém, a crise institucional é reflexo da crise de valores dos próprios seres humanos. Afinal, são estes seres humanos que compõem e movimentam as instituições. Neste contexto de crise se faz necessário a reflexão sobre os valores e comportamentos que cada um possui e deseja ter. É necessário criar uma mentalidade de autonomia, na qual possamos, por iniciativa própria e criticamente, descobrir o que desejamos como bem em nossa civilização. A crise institucional na sociedade, longe de gerar uma inatividade ou a perda de valores, deve nos fazer pensar com mais profundidade sobre comportamentos justos e adequados.
O ser humano, como indivíduo, deve desenvolver princípios reguladores de sua atividade, de sua relação com o mundo e com os outros. Em outras palavras, cada ser humano precisa desenvolver um pensamento ético, se desejamos que nosso espaço social tenha uma qualidade de vida para todos. Talvez a crise das instituições seja uma oportunidade para que o indivíduo possa pensar por ele mesmo. Talvez estejamos vivendo em um período de transição para uma nova sociedade, na qual o indivíduo não necessite esperar que uma instituição (seja ela família, Igreja, Escola, Estado) venha a forçá-lo a ter um comportamento mais humano.
O desafio parece ser, mais do que nunca, individual. Cada ser humano necessita purificar suas noções de bem e mal e agir não simplesmente para a conveniência do grupo, mas para que suas ações possam formar a atividade política, a convivência social, a dinâmica da economia, as estruturas familiares, enfim, estruturas que estejam a serviço do desenvolvimento da vida humana.
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