“A morte é a mudança radical por excelência, pois não tem volta”. Nessa sentença bombástica do ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente Rubens Ricupero lembrei-me do episódio sinistro e “cômico” do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), na fronteira com a Espanha, cansado de se desesperar. Existem pessoas como Benjamin, Stephan Zweig e Joseph Roth, que não hesitaram em abraçar a morte e aderiram à mudança total.
Sempre fui adepto de mudanças em minha vida pessoal e profissional. Prefiro confrontar com os problemas, as dores, injustiças do mundo a viver “no marasmo da normalidade, na doce ilusão do aparente, no monótono da superficialidade”.
O fato é que existem muitas pessoas do nosso convívio que têm verdadeiro horror - como o da morte - por mudanças. Anseiam controlá-la, de fazê-la rara, superficial, lenta e segura. Ora vivemos dominados, penetrados pela mudança, e obcecados em entendê-la, em interpretá-la.
No contundente artigo escrito pela professora e pesquisadora Janira Fainer Bastos - Nada do que foi será - publicado no JC, dia 11 de julho p.p, ela revela o papel fundamental do intelectual: “os filósofos, sociólogos e historiadores examinaram as transformações em curso, baseados em estudos sobre ascensão/queda das civilizações, comparando a antiga noção de ritmo universal que resulta em padrões culturais flutuantes e no ideal de transições harmoniosas retratado em textos orientais e ocidentais (...)”.
Identificar retrocessos, estagnações e as deformações sócio-políticas na sociedade brasileira e advogar por mudanças é o papel de qualquer cientista social. Generalizar ou apontar que “sempre foi assim e sempre será”, que é “próprio de nosso sangue, da tradição cultural, familiar e política” acarreta num conformismo e determinismo imbecil e ultrapassado.
Veja o caso da política brasileira. No “passado não tão distante”, a oposição à mudança vinha dos conservadores que, como o nome indica, desejavam conservar uma ordem da qual eram os beneficiários. A iniciativa da mudança procedia do partido do movimento, da reforma, de todos insatisfeitos com “status quo”, republicanos, liberais, socialistas, desejosos de alterar a monarquia, o absolutismo, o capitalismo.
Hoje, as coisas não são tão claras. Partidos ditos de esquerda são mais resistentes as mudanças - quando na situação - e aos conservadores - oposição - que têm cabido agora propor mudanças. Constrangedor, cruel e inevitável paradoxo da pós-modernidade.
Na verdade, como diz Ricupero: “a inversão de posições põe à luz uma verdade escondida. Mais do que as mudanças em si, o importante é o seu sentido. As anteriores se impuseram porque beneficiavam as maiorias de forma tangível e palpável. Abolir os privilégios dos nobres e dar oportunidade a todos, ou ampliar os direitos humanos, reduzir a semana e a jornada de trabalho, aumentar salários, garantir aposentadoria ou assistência médica, eram conquistas desejáveis, indiscutíveis. Tratava-se claramente de melhorar de imediato a vida da maioria das pessoas. As mudanças atuais pertencem mais à prateleira dos remédios amargos. Como a dieta ou a quimioterapia, podem ser necessárias, fazem bem à saúde, mas seus primeiros efeitos são penosos. Resta ver se de fato salvarão o paciente ou apenas lhe aumentarão os sofrimentos inutilmente”.
O problema não é mudar por mudar, mas mudar na direção certa. Não é verdade, Janira? “É preciso, para isso, que as lideranças falem claramente e demonstrem por que e como a melhoria da vida da maioria depende dessas mudanças. Só assim se criarão razões tangíveis para as pessoas acreditarem que o futuro será melhor que o presente e o passado, para terem esperança na ação e na mudança, para crerem no lema impresso na camiseta de alguns militantes socialistas na eleição francesa: “Mudar de futuro, mudar o futuro.”
O autor, José Renato Ferraz da Silveira é professor do IESB-Preve e Colégio Fênix