O Departamento de Saúde Coletiva da Secretaria Municipal de Saúde recebeu ontem a confirmação de mais uma morte por leishmaniose visceral americana (LVA) em Bauru. A vítima, um homem de 46 anos, morador da Vila Nova Esperança, permaneceu internado no Hospital Estadual (HE) Bauru, mas não respondeu ao tratamento aplicado.
Apesar de ter falecido no último dia 12, a causa da morte do paciente só foi confirmada ontem pelo município. Além da leishmaniose, ele apresentava uma outra doença pré-existente que já havia comprometido seu sistema imunológico, o que complicou seu estado de saúde.
Com a nova notificação, Bauru passa a contabilizar cinco mortes por LVA só neste ano, além de 21 casos não fatais, o que coloca a cidade no topo da lista dos municípios do Estado de São Paulo com maior número de registros de óbito por leishmaniose. Conforme o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) da Secretaria de Estado da Saúde, até 30 de junho Bauru já era responsável por 66,6% dos casos letais de LVA dentro do território paulista.
Dos seis casos registrados, quatro eram de Bauru. A estatística já corresponde a mais da metade do número de moradores vitimados pela doença em todo o ano passado, quando houve 7 mortes e 81 casos registrados.
Conforme o médico infectologista do HE Carlos Magno, além do porte da cidade, que possui atualmente aproximadamente 350 mil habitantes, há outras razões que podem explicar o motivo pelo qual Bauru tem sido tão fortemente atingida pela leishmaniose. “A cidade tem muitas áreas de vegetação dentro da zona urbana e muitos terrenos baldios, locais ricos em matéria orgânica e onde o mosquito palha facilmente se prolifera”, explica.
Além da inviabilidade de eliminar as áreas verdes em que o vetor se reproduz, Magno destaca a dificuldade do município em controlar sua população canina. Para ele, esta seria a principal política pública capaz de baixar – ou ao menos estabilizar – as estatísticas que, insistentemente, têm preocupado e vitimado a população bauruense ao longo dos anos. “Mas é algo muito difícil, porque seria necessário sacrificar todos os cães parasitados. Trata-se de uma medida antipática, à qual as pessoas ainda têm muita resistência”, observa.
‘Importada’
Magno explica ainda que, como a leishmaniose foi ‘importada’ do Mato Grosso do Sul e vem se disseminando pelo Interior do Estado de São Paulo no sentido Oeste-Leste, cidades de grande porte como Campinas, Ribeirão Preto e municípios da Grande São Paulo ainda não foram afetadas. “Por enquanto, só temos registros da doença em cidades de pequeno e médio portes. Mas Araçatuba, por exemplo, que está bem a oeste e foi acometida pela leishmaniose antes do que Bauru, foi eficaz no controle da população canina e conseguiu estabilizar o número de notificações”, diz, afirmando que políticas públicas de combate à doença precisam ser intensificadas, inclusive com a adoção de grandes campanhas educativas que informem os moradores a respeito da prevenção e dos sintomas da LVA.
Isso porque, segundo o infectologista, quanto antes o paciente suspeitar da doença e procurar tratamento médico, maiores são as chances de cura. “Estudos comprovam que, quando o intervalo entre o início dos sintomas e o tratamento superar 60 dias, a letalidade da leishmaniose é maior”, destaca. Além das pessoas contaminadas que demoram a procurar ajuda, são mais suscetíveis à morte pela LVA crianças, idosos e portadores de enfermidades que provoquem imunodeficiências, como a aids.