A coluna ereta, os passos rápidos e o olhar atento a tudo. Quem vê José Aguinelo dos Santos caminhando agilmente para lá e para cá mal pode acreditar, mas ele acaba de completar 120 anos. Pelo menos é o que consta em seus documentos pessoais, que foram registrados muito tempo depois do seu nascimento.
Mesmo não havendo papelada oficial que comprove sua data de nascimento, ele garante: veio ao mundo em 7 de julho de 1888, 54 dias após a princesa Izabel assinar a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão no Brasil. Por ser negro, àquela época Santos não teve acesso à documentação pessoal, mas certamente ele é um dos mais velhos – senão o mais velho – morador de Bauru.
Mais antigo abrigado do Asilo Vila Vicentina, foi somente na entidade que ‘seo Zé’, como carinhosamente é chamado, ganhou uma certidão de nascimento, CIC e RG. “Fizemos os documentos de acordo com o que constava no prontuário da época em que ele chegou aqui. O ‘seo Zé’ não trazia nenhuma referência familiar e tudo o que temos é a história que ele contou”, comenta a assistente social Rochelli Fabiana Amaral.
No prontuário, consta que o senhor nasceu em Juazeiro, na Bahia, mas não se sabe muito além sobre sua vida anteriormente porque ele é um homem de poucas palavras. Foi assim no dia em que a reportagem esteve na Vila Vicentina para tentar entrevistá-lo: o baiano simplesmente não quis saber de conversa.
Portador de uma esclerose não especificada, ‘seo Zé’ alterna períodos de silêncio prolongado com momentos de extrema lucidez. “Esses são os momentos em que ele resolve contar sobre o tempo em que trabalhava nas plantações de mandioca. E nem é a gente que pergunta, ele é que desanda a falar”, revela a psicóloga da entidade, Luciana Casarin.
Lapsos
Embora sofra de uma doença que provoca constantes lapsos na plenitude de sua sanidade mental, a vitalidade do homem centenário impressiona até mesmo quem é especialista em saúde. Mesmo sendo um fumante inveterado desde a juventude, tem pressão de 13 por 9 e não toma nenhum medicamento.
“A maioria dos idosos é hipertensa. A pressão dele é como a de um jovem. Ele nunca se queixou de nenhuma dor e só pega uma gripezinha de vez em quando”, revela a enfermeira Regiane Déo Ricci, que presta serviço no abrigo há sete anos.
O corpo franzino do velhinho também esconde uma personalidade forte, segundo descrevem as funcionárias. Elas contam que, certo dia, foram necessários sete homens para segurá-lo e obrigá-lo a enfrentar uma picada de injeção contra gripe.
“Quando precisa dar algum remédio, tem que misturar no meio da comida, senão ele não toma de jeito nenhum. Ainda bem que ele tem boa saúde”, observa Regiane.
E o gênio forte também se manifesta quando o assunto é vaidade. Elegante que só ele, ‘seo Zé’ não abre mão dos sapatos engraxados, da camisa de manga comprida e calça social, além do inseparável chapéu que cobre a cabeça branca e protege seu rosto de pele fina e impressionantemente lisa.
A habitual vestimenta de gala, aliás, será bastante apropriada para a comemoração que a Vila Vicentina está preparando para celebrar os 120 anos do abrigado. A festa, que acontece no final deste mês, será dividida com os demais internos que fazem anos em julho e terá direito a bolo, salgadinhos e o tradicional ‘parabéns a você’.