A Polícia Federal grava até as próprias reuniões internas e divulga trechos para provar que o delegado do caso Dantas está saindo da investigação por livre vontade. O juiz federal Fausto de Sanctis, que mandou prender o banqueiro por duas vezes, anuncia que vai sair de férias. Trata-se do mesmo juiz que prendeu o traficante Juan Carlos Abadia e o banqueiro Edmar Cid Ferreira (Banco Santos). Há pouco abriu inquérito contra o banco Credit Suisse por remessas ilegais de bilhões de reais de clientes brasileiros, para contas no exterior. Esse juiz deve estar mesmo muito cansado, mas deveria deixar a praia para outro momento menos conturbado. A sociedade brasileira exige que se desfaça toda essa confusão que domina a agenda da mídia. O próprio presidente Lula reclamou do delegado. Depois de quatro anos de investigação, no momento de fazer o relatório o policial sai do caso para fazer um “curso de aperfeiçoamento”. Tudo muito estranho.
O professor Geoff Woodmeyer, um novo brasilianista da Universidade de Columbia, declara-se perdido nesse imbróglio. Conheci-o num recente evento acadêmico na Espanha. Pergunta minha opinião por e-mail. Confesso que também estou perdido. Um garoto de 18 anos tentou furtar numa praia de Fortaleza, o cordão de ouro do presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Sem antecedentes criminais, com domicílio conhecido, e empregado, o assaltante teve negado o seu pedido de hábeas corpus. Gilmar Mendes é o mesmo que em 72 horas mandou libertar duas vezes o banqueiro Daniel Dantas. De nada adiantou a Polícia Federal filmar um dos assessores do banqueiro distribuindo propinas; e o milhão de reais destinados a subornos, apreendidos na sua casa.
A ação policial como espetáculo parece mais uma resposta à ânsia de vingança do que um ato de justiça. Algo assim como a dizer ao povo, pela mídia, que os ricos também sofrem; que nem só os pobres são algemados. Empresários, ricaços e políticos algemados, há algum tempo, se tornaram lugar comum no noticiário.A diferença é que os pobres ficam atrás das grades e os ricos saem logo, lépidos e faceiros. O sentimento de frustração da sociedade fica mais agudo diante da encenação tragicômica da prisão durante as investigações e dos pífios resultados em condenações penais definitivas, com trânsito em julgado, aptas a confiscar patrimônio e a manter pessoas de colarinho branco por muitos anos em penitenciárias. A fugacidade do espetáculo na fase investigatória fere fundamentalmente os que são presos com suporte em bases frágeis ou até equivocadas, e dá aos ladrões do erário a certeza de que o espetáculo será breve e que logo estarão soltos. Ainda bem que é assim. Nós, da elite, “admitamos, somos todos corruptos”, na expressão do cientista político Bolívar Lamounier.
Outra coisa que também não está clara é a aspereza utilizada pelo ministro do STF contra o juiz federal de Sanctis, pedindo sua punição. Só se for por crime de hermenêutica (a arte de interpretar as leis), argumento muito usado sob o nazifacismo. Está difícil para os cidadãos de bem entender o que está ocorrendo. Numa manhã de sábado de brisa suave e sol brilhante, dois senhores de alta estirpe quase rolaram no calçadão da Batista. Um criticava o prende-solta-prende-solta. Exigia que o Estado funcione de maneira adequada, isto é, mantenha preso os vilões do País. O outro defendia a instituição do hábeas corpus, sem a qual não existe Estado de Direito. Isoladamente ambos têm razão. Se juntássemos os argumentos de ambos teríamos o equilíbrio necessário à sobrevivência do Estado, fundado na existência de pesos e contrapesos. Uma instituição, mesmo autônoma e independente, deve ser vigiada por outra, ou outras, numa inter-relação que impede o arbítrio e contém os abusos. O professor Woodmeyer, que me honrou com a troca de mensagens, é um observador isento. Como não-brasileiro, está acima das emoções. Ele acha que a explosão de trapalhadas que ocorreu nos últimos dias pode ter mexido com o mencionado equilíbrio, mas a solidez da democracia brasileira não foi abalada. Somente lamentei o fato de a nação passar por tais vexames, exibidos à larga pelos telejornais do mundo todo. Mais uma vergonha nacional.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC