Esportes

Liga Bauruense: Entidade celebra o passado de olho no futuro

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

Ao festejar hoje seu 77º aniversário de sua fundação, a Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA) encontra nos desafios do presente a chave para o futuro da entidade. Pioneira na organização de campeonatos de futebol amador em Bauru, a agremiação, nas palavras de seu atual presidente, Vicente Silvestre, deve sua longevidade, principalmente, à dedicação dos amantes do esporte na cidade. “Isso vem de longe, com pessoas que lutaram muito para que a liga fosse respeitada”, exalta o mandatário.

Entre os próximos desafios, que, de acordo com Silvestre, exigirão a mesma abnegação, figuram a realização do segundo campeonato feminino - com duas divisões -, além de formar a primeira seleção regional para a edição inaugural do Campeonato Paulista de Futebol Amador, previsto para setembro. “Trabalhamos sobre o que é possível para poder participar desse campeonato com uma seleção regional. Conversamos com algumas prefeituras para formar o time”, detalha o presidente da LBFA.

A perspectiva de sucesso nos novos de desafios, saliente Silvestre, é reforçada pela mentalidade dos integrantes da antiga agremiação. “Tivemos, recentemente, uma reunião muito democrática entre os filiados, coisa que não via há muito tempo”, comemora o dirigente, prestes a ingressar em seu segundo ano de mandato.

Apesar de não haver nenhuma comemoração oficial prevista, a data, conforme Silvestre, não passará em branco. “A melhor forma de comemorar é lembrar o nosso aniversário com o trabalho que a imprensa faz e nos deixa honrados”, orgulha-se Vicente, que hoje, em celebração à data, participa de um programa especial alusivo aos 77 anos da LBFA, na rádio 87.9 FM, ao vivo, das 12h às 14h.

Celeiro de craques em outros tempos, a liga, apesar dos bons valores que atuam nos campeonatos locais, também enfrenta uma realidade comum ao futebol brasileiro de forma geral, amador ou profissional. “Hoje, temos novos jogadores despontando, principalmente na segunda divisão. O futebol, hoje, está nas mãos de empresários”, comenta Silvestre.

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“Terrão, cordão e ferrão”

Um dos exemplos do período fértil vivido pelo futebol amador da cidade na revelação de talentos para o futebol profissional, seja para os times da região ou grandes equipes do cenário nacional, é do ex-centroavante Elizeu Fernandes, que, apesar de não fazer carreira em gramados fora de Bauru, flertou em integrar, nada mais, nada menos, que o “esquadrão” santista dos anos 60 de Pelé, Pepe, Coutinho e cia. A experiência num dos maiores times de todos os tempos aconteceu pouco antes da profissionalização plena, no Bauru Atlético Clube (BAC).

Recém saído dos campos de terra da liga bauruense, aos 23 anos, Elizeu participou de dois jogos com a camisa do alvinegro praiano. “Foram dois jogos-treino contra o aspirante do ‘Jabuca’ (Jabaquara). Fiz gol nos dois”, orgulha-se, explicando porque não permaneceu na Baixada Santista. “Era muito caipira”, assume. “Também tive problemas financeiros. Nem cheguei a firmar contrato com o Santos. Me disseram que gostaram e mandaram que eu voltasse. Não sei o que deu em minha cabeça. Coisa de caipira do interior, nunca tinha saído de casa”, justifica. “Agora, que o futebol amador aqui era um celeiro, isso atesto com tranqüilidade”, considera.

Apesar da baixa estatura (1,67 metro), Elizeu orgulha-se do “estrago” que fazia dentro da área nos tempos das marcas de cal sobre terra batida. Além dos gols em acirradas disputas, também não saem da memória do ex-atacante curiosidades somente encontradas no futebol amador. “Na década de 60, somente dois campos da cidade eram gramados. Posteriormente, colocaram umas cordas para proteger os jogadores contra riscos de invasão”, recorda.

Apesar do cordão de isolamento, certas “invasões,” comenta o ex-goleador, que encerrou a carreira na Portuguesinha, não eram contidas. “Jogava o Derac (DER Atlético Clube) contra não lembro qual time. Estávamos em nosso campo e veio um enxame de abelhas, fazendo o pessoal deitar no chão. A partida em andamento, abelhas por todos os lados, aquela correria. Arbitragem, torcida e jogadores deitando”, diverte-se. “Parou o jogo por causa do enxame. A turma estava com medo de voltar”, narra, em meio às risadas.

Quando o assunto é rivalidade, no entanto, Elizeu adota novamente o tom sério e ressalta a competitividade entre as equipes. “Haviam bons times. No campeonato amador tinha uns sete que se destacavam. Para ser campeão era difícil”, analisa o ex-jogador, que aprova a atual gestão da liga. “Torcemos pelo êxito do trabalho do senhor Vicente, assim como a outra liga (Regional). Não pode haver rivalidade e sim distinção e respeito. Para o bem do futebol bauruense”, receita.

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História

Criada oficialmente em 21 de julho de 1931, a entidade foi denominada, a princípio, Federação Bauruense de Futebol (FPF). “Antes, a cidade tinha torneios sem organização oficial, com jogadores atuando sem ‘ficha’ e que trocavam de time a todo momento, sem critérios ou regulamentações”, testemunha o jornalista e historiador Luciano Dias Pires.

No ano de criação da liga, foi organizado o Torneio Início (“Taça Nadir”), campeonato de tiro curtíssimo, com duração de apenas um dia. O certame, antecedido por um desfile das equipes participantes pelas ruas da cidade, era constituído por jogos com apenas dez minutos em cada tempo, com escanteios valendo como critério de desempate nas partidas. O vencedor do Torneio Início foi o Lusitana F.C., anos mais tarde, rebatizado Bauru Atlético Clube.

Entre os clubes fundadores da liga, figuravam o Lusitana, Smart, Vila Seabra F.C., Democrata. Anos mais tarde, destaque também para o surgimento do Bandeirantes, São Paulo, Atlantic. Noroeste e Guedes de Azevedo, apesar de filiados, não disputaram o Torneio Início, vencido pelo Lusitana, alegando falta de preparo necessário para a disputa.

Ainda nos anos trinta, a entidade passa por sua primeira mudança de nome, quando é denominada Liga Bauruense de Esportes. Até então com a incumbência de gerenciar apenas o futebol, a associação passa a organizar competições com o envolvimento de outras modalidades.

Apesar do amadorismo oficial, muitos jogadores, nos primórdios dos campeonatos da cidade, flertavam com o profissionalismo. “Nesse período, havia o chamado ‘amadorismo marrom’. O jogador ganhava vencimentos por fora”, acrescenta Pires, que também presidiu a entidade, citando alguns dos atletas revelados na época, entre eles Tony Bertony, que foi para o Corinthians, Bigin, contratado pela Portuguesa, e Del Nero (pai de Marco Polo Del Nero, atual presidente da Federação Paulista de Futebol) que, antes de brilhar com a camisa do antigo Palestra Itália, passou pelo Vila Seabra, em Bauru.

Em 1940, a agremiação é intitulada Liga Bauruense de Futebol, mas, no ano seguinte, sofre nove alteração em sua denominação. Ao deixar de cuidar apenas do futebol para organizar competições em outras modalidades, a entidade passa a denominar-se Liga Bauruense de Esportes.

Em 1942, a entidade organiza a primeira edição do tradicional Campeonato Varzeano, que, embora reconhecido oficialmente desde 1944, teve sua primeira disputa realizada nesse ano, em caráter experimental. O vencedor, nessa oportunidade, foi o time do Auto Shell. Já o certame oficial, ocorrido dois anos mais tarde, foi o Canto do Rio.

Sob a gestão de Pires, em 1966, a liga muda novamente sua denominação, desta vez para o nome que ostenta até hoje. “Com o tempo, os clubes abraçaram outras modalidades e ficamos apenas com o futebol. Nessa época também atualizamos o estatuto da liga”, salienta o ex-presidente. “Nossa trajetória é de luta, com abnegação de clubes e do departamento de árbitros, que não mede esforços em prol da liga. São todos meus filhos”, emociona-se o atual mandatário da Liga, Vicente Silvestre.

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