O país tem assistido atônito ao desdobrar recente de fatos e descasos relacionados com a atuação do poder público brasileiro diante de uma enxurrada de veículos que vem sendo diariamente lançada nas ruas e rodovias. As montadoras não param de bater recordes de produção de automóveis e motocicletas.
A produção total de veículos no Brasil cresceu 4,8% em junho quando comparada com a de maio, somando 303,8 mil unidades e registrando um novo recorde mensal, segundo dados divulgados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Comparando-se com junho de 2007, a produção de veículos das montadoras cresceu 23%. Com o resultado de junho último, o primeiro semestre de 2008 atingiu uma produção total de quase 1,7 milhão de veículos, o que representou um crescimento de 21,3% diante do primeiro semestre de 2007.
A cidade de São Paulo, por exemplo, bateu recorde negativo de trânsito em junho último, com 266 km de congestionamento. Com a Capital quase parada em vários pontos, os motoristas encararam muitas horas de tráfego lento. Tristes estatísticas! Toda essa externalidade promovida pelo trânsito tem um custo social altíssimo. Os acidentes de trânsito continuam apresentando índices assustadores.
O incentivo à compra de automóveis é por demais generoso. Hoje, os prazos para carros novos vão até 72 meses (seis anos). Financeiras e bancos estudam oferecer opções de pagamento em até 84 meses (sete anos).
No entanto, o que causa estarrecimento na comunidade acadêmica e técnica ligada à área dos transportes é o recente pacote de medidas do governo ligadas ao setor automobilístico. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 78 milhões para uma das montadoras. O recurso faz parte do novo Programa de Apoio à Engenharia Automotiva, criado em maio último pelo banco de fomento. O valor destinado a todo o setor é de R$ 1 bilhão, a ser aplicado até dezembro de 2008, e prevê o financiamento de gastos com projetos de engenharia realizados no Brasil, segundo informações do próprio BNDES.
Infelizmente, o Brasil não tem aprendido com as experiências, negativas e positivas, de outros países. O americano Wilfred Owen relatava, em seu livro, traduzido para o português como “Estratégias para os Transportes”, no início da década de 1970, toda a problemática americana, derivada da escolha do modo automóvel como referência para a mobilidade americana. Nada disso serviu para nós brasileiros que, passados quase 40 anos, ainda insistimos no equívoco.
Los Angeles, considerada a capital mundial do automóvel, com uma taxa de motorização mais de 1 veículo por habitante, percebendo o imbróglio, passou a investir no transporte coletivo de qualidade. Há que se falar, também, da ação emblemática do prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, que na sua recente gestão modificou a cidade, a partir da construção do corredor de transporte Transmilênio.
Não se pode esquecer, também, do prefeito M.B. Lee, de Seul, que transformou uma grande avenida urbana, a Cheonggyecheon, uma espécie de Marginal do Tietê, em um corredor de transporte coletivo ao lado de um enorme parque linear. Para cada um desses políticos e administradores, não faltou vontade política! O bem-estar da população vem antes dos seus anseios pessoais.
O Brasil tem bons planejadores e até bons projetos urbanos desenvolvidos, porém não implantados. O que falta é vontade política. Os políticos estão acabando com as cidades, onde moram 82% da população urbana. Ou se mudam os paradigmas ou haveremos todos de chorar a futura falta de mobilidade urbana, com as cidades congestionadas, esburacadas, poluídas e cheias de acidentes!
O autor, Archimedes Azevedo Raia Junior, é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes, professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Civil e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana da UFSCar