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Dr. Automóvel: Qualidade

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Por que uma pessoa se decide a comprar um determinado modelo de uma marca, mas nem pensa em comprar um carro semelhante de outra marca? Por que um carro popular pode ser muito mais caro do que outro do mesmo nicho? O que leva um veículo durar mais do que outros da mesma época? A resposta é simples: qualidade.

Parece ser um conceito vago, mas em indústria, é muito específico. Popularmente, qualidade pode ter vários significados, como dizer que determinado carro usa materiais sofisticados, que tem tecnologia de ponta, motores potentes, interior muito equipado com acessórios, mas na indústria automotiva a qualidade quer dizer outra coisa: representa o projeto e o processo de produção, a garantia de repetibilidade de medidas em produção seriada, o seguimento de informações de desenho, materiais mais nobres e a ausência de defeitos. Diz-se que uma peça de qualidade é aquela que foi bem projetada e dimensionada, produzida com materiais adequados, foi bem usinada e que não dará defeito antes do término de sua vida útil. O oposto é aquela peça “paralela” mais barata, feita de material inferior, enfim uma pirata parecida com a original, e que todos juram que vai funcionar igualzinho ao original.

Agora, imaginem um carro fabricado apenas com peças de primeira linha, com qualidade total. É um carro que dificilmente dará problemas, terá um funcionamento ideal por mais tempo, terá vários itens de sofisticação, mas certamente custará bem mais caro. Isto é o custo-benefício atrelado ao veículo. Carros populares são mais baratos e só conseguem sê-lo usando componentes mais simples. Ser simples é o oposto de sofisticado, não implicando que as peças não tenham qualidade, fique isto bem claro. Só que uma peça simples terá um comprometimento e um desempenho mais simples também, precisando ser trocada com maior freqüência e não oferecendo uma resposta tão tecnológica quanto uma mais cara. É o caso dos amortecedores, por exemplo. Os carros populares vêm de fábrica com amortecedores de boa qualidade, mas feitos para um desempenho e durabilidade compatíveis com a proposta do carro. Isto os torna baratos, mas não podem ser comparados com o desempenho de um amortecedor de um veículo de maior desempenho importado. Um amortecedor Koni montado de fábrica em uma Mercedes dura praticamente a vida útil do veículo, não precisando ser trocado, mas é caríssimo e exclusivo. Já um comum de nossos carros precisa ser trocado a cada 50.000 km em média, não oferecem o mesmo desempenho do Koni, porém são infinitamente mais acessíveis.

É claro que tudo tem seu preço, mas não quer dizer que coisas mais baratas são sempre inferiores, isto seria uma generalização errada. Máquinas podem ser bem ou mal projetadas, bem ou mal construídas e principalmente bem ou mal mantidas. Vejamos o caso de veículos de uma mesma época, que sobrevivem até hoje. É o caso dos veículos Willys, por exemplo, não apenas o glorioso Jeep mas também a Rural, a Pickup, o Aero Willys e o Gordini. A família Jeep era extremamente robusta, feita para durar e tinha uma tecnologia simples, fácil de manter. Por isso sobreviveu tanto tempo, até hoje vemos rodando por aí. O próprio Aero Willys era apelidado na época de “Jipe de terno”, pois usava basicamente o mesmo chassi, motor e transmissão do Jeep com uma carroceria mais urbana e familiar. O mesmo não se pode dizer dos Gordini e Dauphine, que eram um projeto da Renault francesa e realmente não suportavam o piso brasileiro, daí que hoje só colecionador tem um.

Os motores antigos da década de 60 tinham uma vida útil de cerca de 100.000 km apenas, depois precisavam de retífica. Hoje é comum motores durarem mais de 300.000 km sem abrir. Isto é devido à maior qualidade dos componentes, dos materiais envolvidos e da precisão na usinagem, com a conseqüente redução de folgas e ajustes. Como sempre, tudo tem seu preço. Aqueles motores antigos se consertava com arame, limpava-se o carburador assoprando o giclê e ajustava o platinado com lixa de unha. Hoje, com a sofisticação eletrônica, precisa-se de um computador (ou raster) para identificar o problema e, quando detectado, geralmente acarreta a troca da peça, pois não dá conserto. É certo que hoje é mais difícil um motor dar problemas ou se desregular, mas o custo ficou bem mais alto. Qualidade tem disso!

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

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