Economia & Negócios

Inadimplência é mais comum na faixa de 2 a 4 salários mínimos

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

O Jornal da Cidade mostrou na edição de ontem que a inadimplência está em queda em Bauru. O número de pessoas incluídas no cadastro do Serviço de Proteção ao Crédito foi 13% menor no primeiro semestre deste ano, se comparado com o mesmo período do ano passado. No entanto, a maioria das pessoas com dívidas na praça possui renda mensal entre dois e quatro salários mínimos.

Uma pesquisa realizada pela TeleCheque, empresa especializada em concessão de crédito no varejo, apontou que 46% dos devedores no Estado estão nessa faixa salarial - a pesquisa refere-se aos primeiros seis meses do ano. No mesmo período de 2007, o índice era de 31,5%. “Devido ao aumento das facilidades de crédito ocorrido nos últimos três anos, esses consumidores passaram a ter acesso a meios de pagamento que não utilizavam no passado”, afirma José Antonio Praxedes Neto, vice-presidente da TeleCheque.

Apesar de não haver números específicos referentes a Bauru, especialistas concordam com a pesquisa realizada pela empresa e apontam que o quadro no município pode ser inserido no mesmo contexto da pesquisa.

De acordo com o economista Reinaldo Cafeo, coordenador do Instituto Data-ITE, a maioria dos trabalhadores bauruenses está inserida na faixa salarial entre R$ 500,00 e R$ 1.100,00. “Essa camada foi muito estimulada a abrir crediários e entrar em um mercado de consumo que não freqüentava anteriormente”, frisa.

Vilão

Cafeo destaca ainda a alta nos preços como possível vilão dessa inadimplência. Segundo ele, esses trabalhadores estão no limite entre o consumo de sobrevivência e os bens supérfluos, ou seja, se por um lado a renda aumentou e foi possível comprar mais, por outro lado, quando os preços começaram a subir eles tiveram que optar entre pagar o carnê da prestação ou comprar o alimento.

Da mesma forma, o economista Wagner Ismanhoto aponta que a inadimplência é maior nesse nível de renda. “É o nível de pessoas que o mercado e as instituições financeiras têm mais procurado para conceder crédito”, destaca. Se antigamente, um trabalhador que ganhasse R$ 1.000,00 não tinha como comprar um carro a prazo por conta do salário mais baixo, atualmente essa realidade mudou e as financeiras já concedem crédito para essa faixa salarial.

O problema apontado por Ismanhoto é que essa facilidade de crédito acaba dando às pessoas a falsa ilusão de poder aquisitivo e, na hora em que o cerco se fecha, precisam escolher qual mercadoria será paga. “Essa média não é específica de Bauru, mas é nacional. Um dado interessante é que a renda aumentou e as pessoas conseguem crédito mais fácil, mas isso traz como conseqüência a inadimplência, quando a pessoa percebe que aquele gasto não cabe de fato em seu orçamento”, ressalta.

Um ponto importante destacado por Ismanhoto e que também foi abordado na pesquisa da TeleCheque é o fato de as pessoas não se prepararem para os gastos inesperados, como medicamentos - aliás, um dos principais fatores de comprometimento do orçamento doméstico. “Se você fica doente, dá um jeito de comprar, mesmo que não tenha o dinheiro. Ninguém deixa de comprar o remédio, e esse gasto inesperado acaba com a programação da pessoa”, salienta Ismanhoto.

Comentários

Comentários