Polícia

Tiro deve ser último recurso de policiais

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Preservar a vida da pessoa inocente, a própria e a do agressor. Ao participar de um confronto, o policial deve ter essas prioridades. Parece simples, mas as notícias que chegam de todos os Estados mostram realidades tristes. Só nos últimos meses, os noticiários foram monopolizados por ações coordenadas por policiais que resultaram na morte de inocentes. Em entrevista ao Jornal da Cidade, o coronel Nilson Giraldi, criador de um método de tiro defensivo aplicado pela maioria das secretarias de segurança do País, explica que caso esses policiais tivessem aplicado o seu método, o resultado seria completamente diferente.

No dia 6 de julho, o menino João Roberto Amaral, 3 anos, foi morto durante ação policial no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Ele foi baleado durante uma perseguição de dois policiais militares a supostos assaltantes. O laudo da perícia feita nas marcas de tiro no carro onde o menino estava com a mãe quando foi baleado concluiu que todos os disparos partiram dos policiais. Em depoimento prestado à polícia no dia do crime, os policiais alegaram que atiraram em resposta a tiros disparados por supostos assaltantes que eles perseguiam.

Em Pernambuco, Maria Eduarda Barros, 9 anos, morreu baleada durante ação da Polícia Militar (PM) contra uma tentativa de assalto, no último dia 18. A Polícia Civil investiga se houve troca de tiros, mas por enquanto confirma-se apenas que os policiais militares atiraram. Dois dias depois, no Maranhão, uma menina de 8 anos foi baleada na cabeça por um policial militar embriagado. O policial estava à paisana quando foi avisado sobre uma briga. Uma pessoa teria sido esfaqueada durante a briga e o policial atirou diversas vezes para tentar acertar o autor da facada. Um dos tiros atingiu a criança, que morreu no local.

Nestes casos, o coronel, que mora em Bauru, pondera que houve falta de preparo. “O policial é conseqüência de seu treinamento. Assim como a polícia é conseqüência de seu treinamento. Aqueles policiais não foram treinados para aquelas situações. E eu sempre digo que treinamento não é gasto, é investimento”, destaca.

Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro mostram que somente neste ano, 649 pessoas foram mortas por policiais no Estado. Para Giraldi, o Rio de Janeiro enfrenta esta situação porque partiu para o conflito. “O Estado está tentando resolver através de confronto. E tiro não acaba com a violência. Apenas aumenta”, avalia.

“Quando o policial tem tempo, basta uma verbalização: aqui é a polícia, jogue a arma e levante as mãos. Se o agressor já estiver atirando, não tem como”, avalia Giraldi. A decisão sobre o momento de atirar cabe ao policial e, de acordo com o coronel, ele tem que identificar a intenção do agressor naquele instante. “Se ele (o agressor) der início contra a vida de alguém, não tem como verbalizar”, pondera.

O método Giraldi foi criado há 20 anos e foi baseado nos mais de 50 anos de experiência policial do coronel. “Temos uma equipe de aplicação do método em cada país da América Latina e também em cada Estado do Brasil, exceto no Rio de Janeiro”, lamenta.

O método é aplicado de forma regular como parte da formação de soldados, cabos, sargentos e oficiais, além, de policiais civis em São Paulo, há quatro anos. Mas há todo um contingente que ainda não foi treinado. “São aqueles que já estavam formados. Por isso investimos em educação continuada”, observa o coronel.

O Método Giraldi é recomendado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha e pelos Direitos Humanos como o treinamento policial mais apropriado para o uso de armas de fogo.

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Legalidade

O Método Giraldi de tiro defensivo é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Nele, a integridade da vítima é prioridade e o disparo, a última alternativa. “Só quando tudo falhou é que se chega ao disparo”, diz o coronel Nilson Giraldi.

Além disso, o coronel pondera que o tiro tem que obedecer aos princípios da legalidade: necessidade, oportunidade, proporcionalidade e qualidade. Ou seja: se é imperativo atirar; se as condições do tiro são adequadas – não pode existir, por exemplo, armas apontadas diretamente para a cabeça da vítima ou pessoas na trajetória de tiro do policial; se a quantidade de tiros foi suficiente para evitar a agressão ou se houve excesso. E se houve vítima de bala perdida, não houve qualidade. “Num confronto, se houve 10 bandidos mortos e um inocente ou um policial morto, houve derrota para a polícia. 0 a 0 é vitória”, observa o coronel.

“A polícia é uma empresa de prestação de serviços; seus clientes são os integrantes da sociedade. Sua missão é servir e proteger a sociedade. Para o criminoso, a lei”, destaca.

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