Fazer dialogar os vivos ou os mortos sobre fatos da atualidade é uma técnica literária bastante utilizada, mas que requer, por parte do autor, muita sensibilidade, conhecimentos profundos sobre o passado e o presente. O nosso grande mestre nessa criação foi Machado de Assis, tão badalado hoje em dia que já virou exagero. A consagração do consagrado. Mania de brasileiro. Outro dia fui privilegiado com as primeiras páginas de um livro que está sendo traduzido do francês por Isolina Bresolin Vianna, minha querida mestra. O autor, Maurice Joly criou um diálogo entre Maquiavel e Montesquieu sobre a política. O diálogo na vida real teria sido impossível porque Maquiavel escreveu “O príncipe” em 1513 e, “Do espírito das leis”, Montesquieu publicou em 1748. Para solucionar esse problema temporal o diálogo se passa no inferno, onde ambos, supostamente devem purgar seus pecados até o fim dos tempos. Mas, de nada importa a morte para aqueles que venceram pelo pensamento, pois o pensamento não morre jamais – diria o ex-secretário de estado da república florentina. O grande teórico francês do liberalismo político pode até ter concordado, “em parte”, com Maquiavel. A face triste do além túmulo é que na migração as almas são levadas à margens sombrias, e ali cumprem o eterno castigo de sofrer as angústias das suas lembranças.
Hoje, no Brasil, os políticos interpretam Maquiavel a sua maneira, como se “O príncipe” fosse um breviário cínico do “perfeito” tirano. O coitado deve estar pagando por muitos pecados não cometidos. Ao longo dos séculos, maquiavelismo virou sinônimo de política sem lealdade, de velhacaria, perfídia e falta de escrúpulos. Na verdade Maquiavel procurava promover uma ordem política inteiramente nova, ou seja, moral, livre e laica, subordinada à razão de Estado. E governar significava para Maquiavel, arrancar o homem à sua maldade natural e torná-lo bom. A política que se produz no Brasil é em razão do interesse próprio, onde o público e o privado se confundem em proveito de uns poucos. E o Estado que se dane. Montesquieu, o pai da ciência política moderna, desenvolveu a doutrina de distribuição da autoridade por meios legais, de modo a evitar o arbítrio e a violência. Seus ensinamentos são usados, muitas vezes, em sentido contrário. O magistrado invoca o “espírito da lei” para julgar contra a lei. O sábio francês criou um “Sistema de Freios e Contrapesos” como forma de neutralizar a má distribuição de justiça em qualquer instância. Para evitar o abuso, o poder é constituído por pessoas e grupos diferentes. “Só o poder freia o poder”, diria Montesquieu ao seu interlocutor no Orco. Sócrates, nascido em 470 a.C., nada deixou escrito, o que não impediu seu discípulo Platão, principalmente, de reproduzir seus pensamentos em forma de “Diálogos”, após a sua morte. O filósofo elogiava o esforço da disciplina física e do trabalho, difundindo a firmeza, o controle do sofrimento e a serenidade da alma. Consagrou o método de indagações e respostas curtas para bem conduzir um interlocutor a se contradizer da opinião inicial. A esposa Xantipa achava que o marido contradizia o próprio discurso porque, na prática, era um vagabundo. O diálogo com ela era na base da porrada.
Os diálogos criados por Homero entre os deuses gregos causaram estranheza entre os filósofos pré-socráticos, porque para estes, os deuses ali representados tinham muitas semelhanças com os homens. De fato, eles eram exatamente tão egoístas e traiçoeiros como qualquer um de nós. Pela primeira vez na história da humanidade foi dito claramente que os mitos talvez não passassem de frutos da imaginação do homem. Em 1888, Van Gogh compartilhou, por três meses, uma casa como pintor Paul Gauguin. Um dia o amigo resolveu retratá-lo enquanto ele pintava os seus girassóis. Ao ver pela primeira vez o quadro que o flagra no último lugar em que poderia estar, pois um pintor se julga sempre fora da pintura, Van Gogh exclamou: “Sou eu, é claro, mas eu me tornando louco”. Seria uma delícia se pudéssemos “ouvir” o diálogo de Van Gogh com o seu psiquiatra, também por ele retratado. Dizem os biógrafos que o dr. Gachet tentou “curá-lo” da pintura. É claro, não conseguiu.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC