Esportes

Superação: Aposentado vira atleta após vencer vício e doenças

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Durante 30 anos, o comerciário e professor de Língua Portuguesa, Odair Gomes, tinha um companheiro quase que inseparável. Presente em variadas ocasiões, esse “camarada” era chamado, seja em momentos de tensão ou relaxamento. “Não conseguia sequer atender ao telefone sem acender o cigarro”, recorda Gomes, hoje aposentado e, com muito orgulho, ex-fumante.

Mas o tabagismo não era o único inconveniente em sua vida, em risco também pelos anos de sedentarismo e má alimentação, que culminaram na quinta e, talvez mais delicada, passagem pela mesa de operações: “Em 1988, aos 43 anos, fui submetido a uma cirurgia para colocação de seis pontes de safena”, recorda.

Com maior ou menor complexidade, as idas e vindas dos encontros com “a faca” já não eram novidade para o então empresário do setor de autopeças, que, desde os 15 anos, era “habituê” dos centros cirúrgicos, para “intermináveis” reparos no joelho direito, lesionado pela primeira vez ainda nos tempos do futebol de várzea, no distrito jauense de Pouso Alegre de Baixo, onde nasceu.

Ao todo, foram quatro intervenções do gênero, sempre no joelho direito, ora no menisco interno ora no externo, além de correções em ligamentos rompidos e desbaste ósseo. “Depois da última operação no joelho (aos 41 anos) parei de jogar, não tinha mais condições”, lamenta.

O mais recente - e derradeiro, espera - procedimento operatório pelo qual passou foi uma angioplastia (desobstrução de artéria) coronariana, em 2002. Vinte quilos acima do peso e um perfil que certamente seria considerado “de risco” para atividades físicas intensas, Odair caminhava rumo à uma linha de chegada não muito feliz.

Foi quando a sua consciência deu largada para a reação e hoje, aos 62 anos, Gomes é exemplo de superação. Hoje, com uma trajetória marcada por 30 participações em corridas pedestres, ele exibe com orgulho no peito as dezenas de medalhas que atestam sua presença em provas de rua, realizadas em diversos municípios paulistas e até mesmo no exterior - competiu, em 2006, pela “Family Fest” (Festa da Família), em Atlanta, nos Estados Unidos -, além da tradicional Corrida de São Silvestre, em três ocasiões.

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Próximo passo

Odair não sossega e agora quer registrar para a posteridade o seu feito. Ele pretende entrar no “Rank Brasil”, publicação que homologa recordes nacionais (semelhante ao internacional “Guiness Book”). O bauruense pretende figurar como recordista na façanha de “participar de corridas pedestres de rua, no percurso de dez quilômetros, aos 63 anos, com seis pontes de safena e uma angioplastia”.

O objetivo de homologar o recorde, conforme Gomes, é deixar registrada a capacidade do ser humano em superar dificuldades. “Quero deixar documentado e incentivar outras pessoas”, vislumbra o atleta amador, que tentará fixar a marca na segunda edição da “Corrida Pedestre Contra o Sedentarismo”, com largada marcada para hoje de manhã, na Associação Luso-Brasileira de Bauru.

Na corrida, organizada com apoio da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), que oficializará o desempenho de Odair - um dos requisitos necessários para homologar o recorde na compilação nacional é o timbre de um órgão oficial. Gomes ainda será acompanhado por um cinegrafista, que registrará seu desempenho em vídeo, enviado posteriormente à direção do Rank Brasil, em Curitiba (PR).

O evento, de acordo com ele, poderá contar com importantes nomes do cenário nacional da modalidade, convidados pelo próprio atleta amador, entre eles a maratonista Maria Zeferina Baldaia, vencedora da São Silvestre, em 2001, e da Maratona de São Paulo, no ano passado. “Não é confirmado ainda, mas caso ela venha, é mais uma pessoa que superou muitos obstáculos”, salienta Odair, referindo-se à trajetória de Maria Zeferina, que era bóia-fria antes de entrar para o mundo do atletismo.

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Página virada

Antes da angioplastia, relata o aposentado, ele não era capaz de andar, sequer, cinco metros dentro de casa. “Uma artéria entupida é como um cano onde não passa água”, compara Gomes, que começou sua grande virada em 2003, aos 57 anos, com curtas caminhadas aliadas a uma dieta. “Comecei devagar, com muito apoio da família, metro por metro”, orgulha-se Odair, que, sob sol ou chuva, não deixava de arriscar seus primeiros passos rumo à mudança no corpo, que refletiu na mente.

“O físico é ‘vagabundo’, quer sofá e controle remoto. A força está no espírito”, receita o ex-sedentário, que perdeu peso e ganhou disposição. “Um belo dia eu caminhava, quando fui ultrapassado por uma senhora que corria. Foi aí que pensei: também posso”, relembra o aposentado. “Comecei devagar, alternava caminhada e corrida leve. Até que um dia corri quatro quilômetros continuamente”, descreve o atleta amador, que, quatro meses mais tarde, disputava seus primeiros 42.195 metros, medida oficial de uma maratona. “E assim não parei mais de participar de corridas”, empolga-se.

Sem se preocupar com o resultado - a maior vitória já havia conquistado nos primeiros trotes - ele conta que o foco maior é completar os percursos. “Não é vergonhoso ser o último. Além disso, depois do vencedor, o mais aclamado pelo público sempre é o último”, brinca Odair, que, nas diversas participações em corridas pedestres, se deparou com outros exemplos de superação, como numa prova disputada em São José do Rio Preto. “Um competidor chamado Joel, com mais de 60 anos, corria mesmo sem articulações em ambas as pernas. Em seu rosto, ele exibia as marcas das diversas quedas que sofreu”, descreve.

Em 2005, as experiências, próprias e vividas por amigos corredores, foram transformadas em livro. Em “A Grande Corrida - Barreiras e Limites” - esgotado em sua primeira edição -, é feito um levantamento de como a força interior do ser humano o leva a superar barreiras e limites.

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