Cultura

Sobre Mundos: Justiça?

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Teoricamente, o Poder Judiciário deveria nos distinguir da barbárie, mas não é exatamente isso que acontece quando acompanhamos o cotidiano de um Tribunal de Justiça, por exemplo, o do Rio de Janeiro. O documentário “Justiça - O Filme”, de Maria Augusta Ramos, nos introduz no sistema mantido pelo Estado para solucionar o problema da criminalidade.

Promotores, defensores públicos, juízes e réus são observados por uma câmera fixa que possibilita testemunhar a frustração de todos diante de uma máquina que, além de ineficaz, nos causa angústia. Um filme obrigatório para todos que pretendem discutir sobre a terrível problemática da criminalidade e sobre o não menos terrível sistema judiciário. Pelo menos, depois do filme, ficamos com uma interrogação que talvez seja o início de todo o questionamento: afinal de contas, esse sistema serve a quem?

Nós vivemos em uma sociedade marcada por um sutil paradoxo. Cada vez mais, o nosso universo se torna pluralista e globalizado. Mais do que no passado, as pessoas possuem variadas opções de comportamento, estilos de vida, religiões, etc. Ao mesmo tempo, estamos mergulhados em uma sociedade de consumo que contamina, com a mesma uniformidade, os comportamentos, instituições e até mesmo as visões religiosas. Em outras palavras, tudo se torna mercadoria e pode ser adquirido através do capital, até mesmo a esperança das benções de Deus.

Nesse universo pluralista, mas onde tudo se transforma em mercadoria, em objeto de troca, sem percebermos, adquirimos uma certeza imediata sobre tudo o que nos rodeia, sem questionarmos o seu fundamento. Assim, corremos o risco de acreditar em idéias e defender discursos sobre a nossa realidade sem sabermos ao certo a origem deste conhecimento adquirido.

Nós nos apropriamos deste saber sem ter a consciência de que ele pode ser falso. Em outras palavras, muitas coisas se tornam óbvias aos nossos sentidos, sendo, portanto não questionadas e nem indagadas sobre o porquê de sua existência. O filósofo Jürgen Habermas nos alerta que, ao vivermos em um universo pluralista, é necessário não somente uma razão prática, ou seja, uma razão que obedeça às normas e busque um agir correto, mas antes desta, uma razão comunicativa.

A razão comunicativa nos leva obrigatoriamente a um agir comunicativo. Esse não significa estar simplesmente inteirado nos meios de comunicação de massa e nas comunidades virtuais, mas principalmente estar disposto a buscar a verdade das coisas através de um diálogo através de um consenso.

O agir comunicativo se inicia com a atenção devida à linguagem, ao que falamos, ao nosso discurso. Muitas vezes, falamos muito e dizemos muito pouco; outras vezes, reproduzimos verdades que são simplesmente a repetição do discurso de outros. O risco é seguirmos caminhos sem aproveitarmos a liberdade que a sociedade democrática pode nos oferecer. A falta de um agir comunicativo prejudica nossa realização pessoal, pois corremos o perigo de seguir o que a corrente da moda nos determina.

Por fim, sem um agir comunicativo acabamos vivenciando conflitos sem uma postura dialogal, ou seja, conflitos nos quais cada um defende a sua “verdade” sem a disposição de construir uma verdade em comum com o outro. Porém, o perigo maior na sociedade pluralista, mas também massificante pela mentalidade consumista, é nos dogmatizarmos, assumindo posturas que sejam inflexíveis.

O caminho para não nos afogar no monótono mar do neoliberalismo é uma razão comunicativa que se expressa em um agir aberto para o diálogo. Quem se deixa levar pela sociedade de consumo não pensa, age dogmaticamente e, sem perceber, segue regras como verdades absolutas, mesmo que elas aparentam ser liberais. Quem age comunicativamente está aberto à descoberta através do diálogo com o outro, de uma verdade sobre as coisas que tenha fundamentos.

Agir comunicativamente é estar disposto a construir uma vida individual e social por verdadeira convicção própria. Neste sentido, pais devem dialogar com os filhos, filhos devem dialogar com os pais. Patrões devem interagir dialogalmente com seus empregados e empregados devem dialogar com seus patrões. Pessoas de religiões diferentes devem conduzir um diálogo inter-religioso. E todos devem dialogar sobre o que possuem em comum: a sociedade de consumo, a função do Estado, a prática dos políticos eleitos, o destino dos impostos pagos, o sistema judiciário, a função de uma penitenciária, etc.

Somente em uma sociedade na qual indivíduos possuem uma razão comunicativa e, portanto, um agir comunicativo, podemos acordar para muitas coisas que são “óbvias” em nossa vida e construir um espaço social no qual a verdadeira liberdade seja possível. Dialogar significa reencontrar aquilo que em nós é “sujeito”, aquilo que faz de cada um, sem exceção, não uma coisa, mas um sujeito da história a ser respeitado como tal.

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