O nome do time é “importado” mas a realidade do Gallathazaray, do Jardim Mendonça, bairro periférico próximo ao Núcleo Mary Dota, é genuinamente brasileira. Todo domingo, as 25 jogadoras, com idades entre 14 e 24 anos, pegam suas chuteiras, vestem a camisa verde limão e entram em campo. “Domingo é o único dia para treinos, porque a maioria trabalha e estuda”, justifica a lateral direita Riciene Alexandra Martin Alexandre, “porta-voz” informal, que também acumula a função de vice-presidente.
Fundado há três anos, o time feminino, com nome inspirado no Galatassaray, da Turquia, treina semanalmente no estádio distrital do Mary Dota, nem sempre, lamentam as boleiras, para representar Bauru. “Sem apoio, em muitos casos, somos obrigadas a jogar por outras cidades”, lastima a lateral do time, que conquistou, mês passado, a medalha de bronze no torneio de futebol feminino dos Jogos Regionais, disputados em Lins - com a camisa de Jaú.
Terceiro colocado, ano passado, no campeonato feminino da Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA), cuja segunda edição está prestes a ter o pontapé inicial (leia texto nesta página), o time do Jardim Mendonça, além do pouco tempo que tem para treinar, ainda encontra outro tipo de adversário durante a preparação. “O campo onde a gente treina é aberto, então muitos homens vão lá e querem jogar. Para não ter ‘briga’ a gente treina contra eles”, detalha a goleira Renata.
No entanto, o que seria, a princípio, um problema, agora é trunfo para as jogadoras do Gallathazaray. “Adaptamos nosso treino ao estilo de jogo dos homens, que é bem diferente”, comenta a vice-presidente da equipe. Quando encaram os marmanjos, salienta Riciene, as meninas entram em campo preparadas para um pega em que o cavalheirismo é colocado, sem cerimônias, para escanteio. “Os homens são bem mais fortes e, se a gente não está preparada, leva tranco e sai rodopiando”, narra a lateral. “Mas estamos acostumadas já e ganhamos deles”, gaba-se. “Eles não gostam muito quando perdem”, diverte-se a jogadora, citando também melhoras na noção de marcação do time feminino. “Homens driblam melhor e aprendemos a marcar bem treinando com eles”, credita.
“Guerra de Sexos” à parte, elas se dizem focadas na segunda edição do torneio feminino da LBFA, anunciando que brigam pelo título em 2008. Ano passado, a competição foi vencida pelo time de Marília, que derrotou, na decisão do título, a equipe bauruense da FIB/Semel.
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Equipe ‘expulsa' o tom machista dos gramados
Apesar do futebol feminino viver novos ares no País, principalmente com o recente sucesso da seleção, ouro nos jogos Pan-Americanos do ano passado e prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, com destaque para a meia-atacante Marta, eleita a melhor do mundo pela Fifa, a maioria das jogadoras brasileiras ainda enfrenta dificuldades com a falta do estabelecimento pleno de um campeonato nacional de clubes.
Se entre as profissionais o meio de campo está embolado, no amadorismo, então, as barreiras vão além da divisão de campo com barbados. “Já ouvimos muitas vezes as piadinhas, como aquela ‘lugar de mulher é na cozinha”, cita Riciene, que, apesar do machismo ainda existente, diz testemunhar uma melhora gradual quanto à aceitação e reconhecimento do futebol das meninas. “A coisa está mudando e o campo sempre é lotado de gente que gosta de assistir aos treinos”, orgulha-se. “Aos poucos vamos vencer essa luta”, espera a lateral esquerda Nayara.
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Preparativos do torneio
Vicente Silvestre, presidente da entidade organizadora da segunda edição do campeonato feminino, espera um bom nível técnico entre os times participantes. “Oito equipes já confirmaram presença”, anuncia. “Mesmo assim, espero cerca de 12 times no campeonato”, vislumbra o dirigente. Por enquanto, o Gallathazaray é a única formação bauruense confirmada na disputa, mas o chefe da liga confia na adesão de outros times da cidade.
Semana passada, na sede da entidade, estiveram reunidos representantes dos clubes e da comissão de arbitragem para traçar as primeiras diretrizes da disputa, que, por enquanto, ainda não tem data de estréia e tabela definidos. “Teremos uma nova reunião, no dia 16, onde definiremos isso (jogos e datas)”, confirma Silvestre, que cita entre as novidades para este ano a intenção da liga em contar com uma comissão de arbitragem integralmente feminina. “Para isso, queremos capacitar as interessadas”, observa. As aulas, que são gratuitas, começam no dia 14 de agosto. Mais informações pelo telefone (14) 3227-6488, na LBFA.