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PF deflagra operação contra fraude em fila de transplantes no Rio

Por Luisa Belchior | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Rio - Um médico suspeito de chefiar o grupo que vendia lugares na fila de transplantes de fígado no Rio foi preso na manhã de ontem na operação Fura-Fila da Polícia Federal (PF). Ex-chefe da equipe de transplantes hepáticos do hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-coordenador do Rio Transplantes, do governo estadual, Joaquim Ribeiro Filho foi preso em casa, em Laranjeiras.

Além da prisão do médico, nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos na zona sul e no centro da cidade. Outros cinco médicos foram denunciados (acusados formalmente) pelo Ministério Público Federal por suposta participação no esquema, que permitia que pacientes furassem a fila do sistema nacional de transplantes mediante pagamento ao grupo de até R$ 250 mil.

Joaquim Ribeiro Filho é apontado como o organizador e o chefe do esquema. Segundo a PF, ele desviava fígados humanos que iriam a pacientes no topo da lista de doações e destinava os órgãos a pessoas que pagavam a ele taxas que variavam entre R$ 200 mil e R$ 250 mil.

Para a fraude, o médico e sua equipe - nove pessoas no total - inseriam na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) pacientes que eles sabiam que não conseguiriam receber os órgãos por incompatibilidade física, de acordo com as investigações. Dessa forma, conseguiam burlar o sistema do SUS e transplantar o órgão nos pacientes que haviam pago ao grupo.

Com a incompatibilidade do primeiro paciente escolhido - de acordo com sua posição na fila e a urgência -, o médico ficava automaticamente autorizado pelo SUS a escolher quem seria o transplantado na fila, segundo o superintendente da Polícia Federal no Rio, Valdinho Caetano. “Para dar um ar de legalidade, eles inseriam na lista essas pessoas que sabiam que não eram compatíveis com os órgãos”, afirmou Caetano.

Ribeiro Filho seria levado para a Polinter, no Rio, ontem, de acordo com a PF. A reportagem ainda não falar com os advogados dos denunciados.

Transplantes

As investigações, afirma o superintendente, conseguiram comprovar que ao menos dois transplantes foram de fato realizados por meio do esquema durante os quatro anos que o grupo agiu - entre 2003 e 2007. Documentos apreendidos na manhã de ontem devem comprovar a realização de outros transplantes dentro do esquema, disse Caetano.

Uma terceira operação chegou a ser realizada, mas os médicos não conseguiram transplantar o órgão por incompatibilidade do paciente.

Nos três casos, as operações foram feitas na Clínica São Vicente, Gávea (zona sul do Rio), que é credenciada ao sistema nacional de transplantes. Nenhuma irregularidade foi encontrada por parte da unidade de saúde, segundo a PF. A clínica ainda não se pronunciou sobre o caso, mas a assessoria de imprensa do estabelecimento, que é particular, ressaltou que nenhuma ilegalidade foi constatada.

Os pacientes que teriam sido beneficiados com o esquema e pago ao grupo para furar fila não foram indiciados mas, segundo a PF, serão investigados. “Entendemos que os pacientes que tinham conhecimento do esquema tinham a questão da urgência, da saúde. Ainda vamos avaliar se haverá indiciamento”, disse Caetano.

O médico Joaquim Ribeiro Filho e outros cinco médicos - Eduardo de Souza Martins Fernandes, Giuliano Ancelmo Bento, João Ricardo Ribas e Samanta Teixeira Basto - que também fariam parte do esquema foram denunciados pelo Ministério Público Federal à Justiça pelo crime de peculato. “Entendemos que houve esse crime porque, na nossa interpretação, o órgão humano que será doado é um bem público”, disse o superintendente da PF.

Investigação

A investigação do esquema começou em 2003, a partir de um caso no qual, segundo a Polícia Federal, um paciente ligado ao governo estadual do Rio, que era o 32.º segundo na lista de transplante de fígado, conseguiu ser transplantado dois dias após o médico Joaquim Ribeiro Filho assumir a coordenação do Riotransplante, órgão estadual que administra este tipo de operação no Rio.

Ribeiro Filho, de acordo com as investigações, foi indicado e nomeado pelo então secretário estadual de Saúde do Rio, Gilson Cantarino, que foi preso semana passada na operação Pecado Capital, da PF, por integrar suposto grupo de desvio de verbas da Secretaria Estadual de Saúde por meio de transferências para ONGs.

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