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População desconhece sintomas do AVC

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Principal causa de morte no Brasil, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) ainda é um grande desconhecido da população. A conclusão é do neurologista Octávio Marques Pontes Neto, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Ele coordenou o estudo que abordou 801 pessoas em quatro capitais brasileiras. O resultado foi que a maioria dos entrevistados não sabia quais os sintomas de um AVC, nem mesmo que o neurologista é o especialista indicado para o atendimento do problema.

Pontes Neto explica que na maioria dos casos o AVC é provocado pela obstrução de uma artéria que leva sangue ao cérebro. “A região cerebral afetada fica sem receber o suprimento sangüíneo necessário e perde sua função, causando os sintomas neurológicos do AVC, que são fraqueza de uma lado do corpo, dormência, perda da visão, dificuldade para falar ou entender”, enumera.

Se a desobstrução desta artéria for feita rapidamente - em menos de três horas -, parte da região afetada pode voltar a funcionar e os sintomas tendem a regredir ou a desaparecer. Esta região do cérebro, que pode ser salva se receber novamente o fluxo sangüíneo é denominada pelos especialistas de zona de penumbra.

“Infelizmente, como o cérebro tem uma alta taxa de metabolismo e não pode ficar muito tempo sem receber suprimento sangüíneo, se o paciente com sintomas de AVC não for tratado rapidamente, os neurônios dessa zona de penumbra perdem irreversivelmente sua função e morrem, ou seja, ocorre o infarto cerebral”, explica.

Para que isso não ocorra, o especialista destaca que é muito importante que as pessoas saibam identificar quando um amigo ou familiar esteja sofrendo um AVC. Porém, o conhecimento que o brasileiro tem sobre a doença ainda é muito superficial. No seu estudo, Pontes Neto conta que leigos foram abordados em locais públicos de grande movimentação de pessoas.

“Era passado um caso hipotético de AVC, com os sintomas clássicos e os entrevistadores perguntavam à pessoa o que ela faria, entre outras questões”, recorda o médico. O resultado deixou Pontes Neto alarmado. “Foram dadas mais de 28 denominações diferentes para os sintomas, desde trombose, isquemia, paralisia, até congestão”, revela. Para ele, isso mostra que a doença que mais mata no País – de acordo com a Sociedade Brasileira de Doenças Cardiovasculares, o AVC é responsável por 30% das mortes no Brasil - ainda não tem uma denominação conhecida.

Neurologista

Somente 15,6% dos entrevistados sabiam o que significa a sigla AVC e pouco mais de um quarto das pessoas sabia que o neurologista é o médico indicado para o tratamento da doença. “Muitos também não souberam informar qual o tratamento para o acidente vascular cerebral. Alguns chegaram a citar fisioterapia, que é empregada para reabilitar um paciente que sofreu um AVC”, destaca o neurologista.

Para Pontes Neto, esses dados demonstram que muitos brasileiros não sabem identificar o problema e não percebem que é uma emergência. “É a doença que mais mata no País e, apesar disso, existe todo esse desconhecimento. Talvez, essa alta taxa de mortalidade tenha relação com a falta de informação que a população apresenta”, pondera.

Como toda doença do aparelho cardiovascular, para evitar o AVC a pessoa deve adquirir hábitos saudáveis, como parar de fumar, não exagerar na bebida alcoólica, controlar a pressão arterial, tratar a obesidade, praticar exercícios, controlar o diabetes, o colesterol e abandonar o sedentarismo.

Outros fatores também influenciam, mas são indicadores que as pessoas não podem modificar, como a idade, já que os acidentes vasculares cerebrais são mais comuns em idosos, o gênero – os homens têm mais chances de sofrer o problema. Porém, a partir da menopausa, as mulheres igualam-se nos riscos. Além disso, a descendência também influi.

De acordo com Pontes Neto, negros e latinos possuem mais chances de sofrer um AVC do que um asiático. Quem tem casos na família também deve ficar alerta e redobrar o cuidado com a saúde.

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Tipos da doença

O Acidente Vasculares Cerebral (AVC) mais comum é o isquêmico: um coágulo provoca falta de irrigação sangüínea num determinado território cerebral, causando morte de tecido cerebral.

O AVC hemorrágico é menos comum, mas não menos grave, e ocorre pela ruptura de um vaso sangüíneo intracraniano, levando à formação de um coágulo que afeta determinada função cerebral.

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Tratamento

Até recentemente, o único tratamento para o Acidente Vascular Cerebral (AVC) era a prevenção. Atualmente, existem medicamentos, os trombolíticos, que quando administrados nas primeiras três horas dos sintomas, podem desobstruir a artéria cerebral entupida, restaurando assim o fluxo sangüíneo cerebral. Porém, esse tratamento não é indicado a todo o tipo de paciente. Por afinar muito o sangue, o medicamento oferece uma série de contra-indicações e, por isso, cada caso deve ser analisado com cuidado pelo especialista.

Este tratamento já está disponível em alguns centros públicos e privados no País, entretanto a grande maioria dos pacientes com AVC procura muito tarde o atendimento médico por desconhecimento da doença e dos seus sintomas iniciais, o que dificulta o reconhecimento e encaminhamento rápido para um hospital adequado.

O neurologista Octávio Marques Pontes Neto destaca que os hospitais e profissionais de saúde também precisam estar preparados para identificar rapidamente os sintomas de AVC e prestar atendimento apropriado ou encaminhar o paciente o mais rápido possível para um centro com neurologista e equipe especializada no tratamento do AVC.

No Brasil existem somente 25 centros especializados em tratar AVCs. De acordo com Pontes Neto, desde 2001, o tratamento com trombolítico foi aprovado para ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Porém, ainda não foi implantado na rede. Segundo o médico, a expectativa é que nos próximos meses o Governo Federal autorize o tratamento gratuito pela rede.

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