Observando as muitas vidas que enfrentam o cotidiano brasileiro podemos afirmar que o ser humano é um verdadeiro semi-deus. Para sobreviver mergulhado em uma sociedade na qual se é tratado como um estrangeiro, é necessário uma divina força e uma profunda sabedoria. Heracles é um jovem recém-saído da Febem, que procura construir sua vida através de um serviço honesto como motoboy. Para conseguir assegurar seu novo emprego, o adolescente tem que passar por um período de testes cruzando todos os bairros paulistanos. “Os 12 Trabalhos”, filme de Ricardo Elias, é uma leitura contemporânea do mito de Hércules, filho de Zeus e Alquimena, que deve trabalhar para a empresa de motoboys Olimpo, no caos urbano de São Paulo.
Nos dias de hoje, em uma sociedade à procura de valores, se faz necessário que cada ser humano possa encontrar um caminho de harmonia pessoal. Esta pode ser construída a partir do momento que exercitamos regularmente três atitudes básicas e simples. A primeira podemos chamar de “postura da imanência”. Esta se constitui em um esforço de construir uma ordem para a própria vida, que não seja sustentada por valores sobrenaturais ou condicionada pelas normas sociais.
Fazer de sua própria existência, a qual é constituída desse material essencialmente mortal (o nosso corpo, a nossa casa, o nosso trabalho, a nossa cidade), o lugar de construção de uma ordem que se mantém por coerência interna porque é prazerosa, e não simplesmente porque uma ordem superior assim o determina. Se cuido do meu corpo é para ter saúde e vivenciá-lo para o prazer; se tenho uma profissão é porque me realizo como pessoa através dela; se tenho uma moradia faço dela um verdadeiro lar, ou seja, um espaço, onde eu possa ficar à vontade e ser eu mesmo; se moro em uma cidade contribuo para que ela seja um lugar de boa convivência entre as pessoas.
A “salvação” neste sentido não acontece no pós-morte, mas na vida que conduzimos nesta existência. A transcendência autêntica reside na realização imanente, no aqui e agora, e no enriquecimento de minha vida. Esta imanência é também marcada pela noção da “conversão a si”. Para que eu construa uma vida verdadeiramente prazerosa e com a qual não venha depois me arrepender é necessário que eu me conheça. O objetivo é um amadurecimento na relação consigo mesmo em que a soberania não se exerça como um combate, mas como um gozo. Aqui encontramos a segunda atitude: a “postura de domínio”.
O domínio é diferente do poder. O poder, como normalmente se entende, é exercido através da coerção, da posse, do exercício do mais forte sobre o mais fraco. O domínio é fruto do conhecimento, da abertura para se conhecer a si mesmo e a vida em todas as suas dimensões. Esse domínio abrange o conhecimento de quem somos, como nos desenvolvemos, nossos sentimentos e relacionamentos, nossas experiências vividas até agora, nossa estrutura social e política. Através da “postura de domínio”, da atitude comportamental de que a vida é uma grande escola e somos eternamente alunos, nos faz avançar na “postura da imanência”, ou seja, na construção de uma vida que nos satisfaça e nos realize como pessoa.
Porém, a “postura de domínio” necessita de uma terceira atitude também muito simples: a “postura da distância”. A vida contemporânea nos faz mergulhar em um mar de afazeres, na busca da sobrevivência, na correria cotidiana. Os dias fluem sem que possamos percebê-los corretamente; as semanas passam “voando” e, ano após ano, percebemos que ficamos velhos. Neste universo carregado de afazeres e informações se faz mais do que necessária a prática do autêntico retiro.
De alguma forma, o ser humano na contemporaneidade necessita por alguns instantes, dias, ou semanas, retirar-se da rotina, da correria e se afastar das obrigações. O objetivo deste distanciamento não é a fuga de nosso universo, mas um pensar sobre a vida que construímos, para onde caminhamos, o que perdemos pelo caminho, o que conseguimos conquistar até agora. Mais do que isso, o retiro nos proporciona uma recuperação das forças e nos faz retomar a caminhada com muito mais vitalidade e claras finalidades.
As posturas da imanência, de domínio e da distância nos ajudam a construir uma vida harmoniosa, a qual não deve possuir a finalidade de separar o eu do mundo, mas prepará-lo em vista dos acontecimentos do mundo e transformá-lo em um sujeito racional de ação. O sujeito que pratica regularmente estas três posturas básicas aprende a se reconhecer como um ser humano, mas ao mesmo tempo um semi-deus, um filho de Deus.
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