Tribuna do Leitor

Ao meu e a todos os pais


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Lembro-me de você atrás de um arado, abrindo sulcos na terra onde brotariam feijão, arroz, milho para nossa alimentação, nossas roupas, nossa escola, nossa saúde, nossa vida ... Depois veio o trator que revolvia toda a terra, transformando o local num mar vermelho, onde mais tarde cresceriam as plantações. Sabe, pai, os agrônomos descobriram que o seu jeito primitivo de cultivar é muito melhor para o solo e para as plantas!

Também me lembro quando você limpava o córrego que cortava nosso sítio, em cujas margens não existia cobertura vegetal, julgando ser a limpeza necessária para a água fluir melhor. É, pai, o córrego não passa mais pelas nossas terras! Não era preciso limpá-lo. Ao contrário, suas margens, especialmente sua nascente, deveriam estar cobertas pela mata ciliar que o protegeria contra o assoreamento.

Ah! Sabe os leiterinhos? Aquelas árvores que invadiam os pastos e eram tidas quase como pragas? Pois é, foram consideradas espécies em extinção e protegidas contra o corte!

Quantas vezes olhamos juntos para o céu, pesquisando as nuvens e aguardando as chuvas para iniciar o plantio. Tantas outras vezes, rezávamos para a chuva parar, a fim de não perder a colheita.

Lembra-se daquela manhã, quando matei toda alface plantada, pois acordei cedinho para molhar as plantas cobertas pela geada, pensando estar, assim, salvando-as? Você entendeu meu erro e nem bronca levei. Afinal, errei pensando em acertar!

Você vivia do ambiente e tudo que fazia era pensando em protegê-lo. Desde a caça ao tatu, a perseguição aos formigueiros, o fogo na roça para limpar o terreno, o estilingue para espantar (e matar!) os passarinhos ....

Atualmente descobriu-se que quase tudo que foi feito poderia ter sido de forma diferente. As cidades e os campos desenvolveram-se de forma insustentável. Como conseqüência, há este monstro chamado aquecimento global que deixou o clima maluco e que ameaça o futuro da humanidade.

Você cometeu erros por desconhecer o perigo. Os pais de hoje têm o poder do conhecimento nas mãos. Desejo que todos façam bom uso deste conhecimento, preservando para si e defendendo para seus filhos e netos um meio ambiente equilibrando e saudável.

A autora, Maria Helena Beltrame, é advogada, OAB-SP 78599, coordenadora da Comissão de Meio Ambiente da OAB em Bauru e presidente do Instituto Ambiental Vidágua

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