A disposição com que aposentados e pensionistas são abordados é de dar inveja. Tão grande que chega a ser irritante. Talvez pelo fato dessas pessoas terem o 13º salário atencipado para agosto, é o público preferido dos funcionários de financeiras. Dificilmente um jovem ou qualquer pessoa aparentando seus 40 e poucos anos são abordados. Basta ter cabelos brancos para escutar “boa tarde, senhor (a)”.
Fingindo falar ao celular, o repóter ouve o diálogo entre um deles e um aposentado que circulava pela rua Primeiro de Agosto. A abordagem é direta. Eles oferecem inúmeras vantagens e benefícios. Bastava informar o número do CPF. O cidadão se interessa pela proposta. A funcionária, então, pega um papel e começa a anotar seus dados pessoais. Vendo que a folha era extensa, ele se desinteressa pelo assunto - o motivo seria a falta de tempo.
“Mas eu não preciso preencher a folha inteira, é rapidinho”, insiste a funcionária. Em certos momentos, ela parece se aproveitar da ingenuidade do aposentado, que chega inclusive a tirar o talão de cheques do bolso.
O aposentado desiste do negócio, mas a funcionária não. Ela simplesmente pára em sua frente e o impede de andar. Depois, percorre meia quadra ao lado do homem, repetindo as inúmeras vantagens do processo. Porém, se cansa e parte para outro “cliente”, deixando o aposentado irritado.
Depois de dez minutos, o repórter se dirige à mesma funcionária. Ela não afirma o valor das prestações, mas com uma velocidade incrível solicita o número do documento pessoal. “Para aposentado, os juros são mais baixos”, explica.
A reportagem pede para um idoso consultar as taxas de juros a partir de um empréstimo de R$ 1.000,00 que serão pagos em 12 meses. As parcelas são de R$ 149,71, o que significa 10,40% ao mês ou 228% ao ano. O primeiro vencimento é em 45 dias.
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Ingenuidade como arma
Funcionários de bancos e financiadoras usam da ingenuidade de aposentados e pensionistas para concluir empréstimo de forma rápida. É o que afirma o coordenador do Procon de Bauru, Amauri Roma. Ele diz que é preciso cuidado com qualquer tipo de proposta.
Roma alerta ainda para o fato de que, qualquer contrato, só deve ser assinado após extensa leitura. “É necessário, ainda, que uma das cópias fique com o interessado”, ressalta. “Sempre é bom desconfiar de dinheiro rápido.” No caso de empréstimos, ele indica que o interessado procure instituições financeiras sólidas e que apresentem credibilidade.
Segundo Roma, o Procon recebe inúmeras denúncias em relação a fraudes, nos casos que se referem a empréstimos não solicitados ou pedidos de crédito feitos por outras pessoas. “Com a nova resolução do INSS, o crédito tem que cair diretamente na conta da pessoa”, conclui.
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Valor alto
Não há um motivo especial para que bancos e financeiras apliquem percentuais tão diferentes ao calcular juros sobre um mesmo valor. Segundo o economista Wagner Ismanhoto, que fez todos os cálculos para a reportagem do JC, a velha fórmula de pesquisar as melhores opções ainda é válida, embora todos os números verificados sejam altos. “A pesquisa é fundamental”, aconselha.
Ao ser informado sobre os números após levantamento realizado pelo JC - considerando-se empréstimos para pessoa física -, Ismanhoto afirma que a melhor condição encontrada ainda é considerada abusiva. “Só para se ter uma idéia, a poupança rende 6% ao ano”. Para aposentados, as taxas apresentam pequena redução.
Para o economista, a melhor saída para quem possui dívida é renegociar com o próprio banco e, assim, tentar juros menores. “Com a negociação, consegue-se taxa de até 5% ao mês, que é melhor do que as que foram encontradas (pela pesquisa do JC)”, sugere. “Eu não indico a ninguem (fazer empréstimo). Esses valores são um ‘assalto’, embora administradoras de cartão de crédito também pratiquem esssa taxas”, observa.