Na manhã friorenta de 19 de junho de 58, a cidade do Rio de Janeiro amanheceu nervosa. Percebia-se muita angústia na fala do padeiro, do motorneiro, do porteiro da Faculdade, dos professores, de todo mundo, naquela quinta-feira. Depois da perda do título de 1950, era a primeira vez que chegávamos tão perto do cobiçado galardão de campeões mundiais de futebol. No estádio Nya UlLevi, em Gotemburgo, Suécia, os brasileiros enfrentariam a terrível retranca do País de Gales. O país jogava todas as suas fichas nas pernas tortas de um tal de Garrincha, um mulato claro do Botafogo que viera de um lugarejo na raiz da serra denominado Pau Grande, e de Pelé, um jovem negro de 17 anos que chegara de Bauru e defendia o Santos. No decorrer do jogo a cidade literalmente parou. Todos com os ouvidos colados na narração do Oduvaldo Cozzi, através dos populares radinhos Spica. Os senadores não tinham esse privilégio. Atarefados em sessão ordinária no prédio azul da Cinelândia, ficavam com um ouvido nos oradores e outro nos sons ininteligíveis que chegavam da rua. Copos com água chegaram a cair das mãos de serventes. De momento a momento, os membros do Senado interrompiam as falas. Positivamente a sessão não fluía. Até que aos 21 minutos do segundo tempo um bedel se aproximou do presidente Nereu Ramos com um bilhete. Nereu desdobra-o sério e, parecendo aliviado, comunica ao microfone:
- Senhores senadores. A Mesa informa: Brasil um a zero, gol de Pelé! Depois de uma compreensível manifestação de júbilo, a sessão pôde, enfim, seguir seus trâmites.
Contada por Rui Bertoti