“A universidade precisa sair do seu castelo e ajudar a resolver os problemas da sociedade”. A frase poderia ter sido construída por qualquer pessoa fora do meio universitário. Mas não é o caso. O homem que disse esta frase dedicou boa parte da vida ao ensino superior e à pesquisa, mas nem por isso deixa de ter uma visão crítica sobre o papel da universidade.
O pró-reitor de pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), José Arana Varela, vice-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vai além e afirma que, ao longo dos anos, tem se cometido muitos equívocos com relação à universidade. Um deles é a injeção maciça de verbas do governo nas faculdades, quando deveria se priorizar os ensinos fundamental e médio, celeiros de talentos a serem descobertos.
As afirmações foram feitas dentro do 1º Simpósio do Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec) e o 1º Seminário Lecotec de Comunicação Científica, que fazem parte do 2º Encontro Nacional da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc), que começou ontem e vai até sexta-feira, no câmpus da Unesp, em Bauru.
Durante sua conferência, Varela pôs o dedo na ferida do ensino superior, afirmando que a universidade não é sinônimo de status, como muitos imaginam, mas sim de vocação. De acordo com ele, não é criando sistemas de cotas sociais e raciais que vai se resolver o problema de trazer a sociedade para dentro da universidade. “É preciso criar oportunidades e trazer os talentos para a universidade”, salientou.
Uma das maneiras disso acontecer é aproximar a universidade da sociedade. Para isso, volta-se à primeira frase dita por Varela: “a universidade precisa sair do seu castelo”. Como fazer isso? Difundindo o que acontece dentro dos câmpus. “A sociedade precisa ser informada do que acontece na universidade”, aponta.
Uma das maneiras de se fazer essa divulgação é através dos meios de comunicação, sendo a TV um dos principais veículos para a difusão das pesquisas científicas em linguagem acessível à população em geral. “O rádio é muito importante, mas o principal é a TV digital. A comunicação é múltipla, você tem que criar ambientes, como museus de ciência, experimentos ambulantes, feiras onde a universidade pode ir e divulgar o conhecimento”, salientou.
No entanto, para que essa comunicação seja viável, o pró-reitor explica que é preciso adquirir uma linguagem, e essa linguagem é adquirida nas escolas de comunicação e artes. “Esse evento é extremamente importante nesse sentido, porque as pessoas aqui estão preocupadas com a comunicação da ciência. E essa comunicação tem que ser para a sociedade, e escrever para quem não entende é um desafio”, frisou.
Diante disso, Varela coloca tópicos sobre os passos que devem ser seguidos para que a aproximação entre universidade e sociedade: difundir o conhecimento gerado nas universidades a todos os níveis da sociedade, utilizando os meios de comunicação; criar linguagem acessível; promover museus de ciência com linguagem específica para a sociedade; filmes e vídeos ilustrativos para conceitos complexos; olimpíadas de matemática, biologia, química, física, entre outras matérias, para descobrir talentos. “Enfim, criar instrumentos para trazer esses meninos para a universidade e mantê-los nela”, frisou.
Discussões
As atividades do 2º Encontro da Ulepicc Brasil continuam hoje com discussões sobre política, tecnologia e educação. Amanhã haverá a conferência de abertura, ministrada pelo presidente da Ulepicc Internacional, professor-doutor Luis Albornoz, docente da Universidad Carlos III de Madrid, que tratará do tema “Digitalização e sociedade”. Ainda na quarta-feira, o eixo de discussões abordará questões econômicas e a política de comunicação no Brasil e no mundo.
Além de estudantes universitários, de pós-graduação, professores e pesquisadores, os temas são pertinentes a profissionais da mídia e de organizações não-governamentais. Na quinta-feira, está programada uma reunião com entidades da sociedade civil, a partir das 17h30, no anfiteatro da central de salas de aula. A programação também destaca apresentações musicais, como a da Orquestra de Câmara da Unesp, marcada para esta quarta-feira, inserida no 2º Encontro da Ulepicc Brasil.
• Serviço
De 11 a 15 de agosto de 2008, a Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac-Unesp) sedia o 2º Encontro Nacional da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc), o 1º Simpósio do Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec) e o 1º Seminário Lecotec de Comunicação Científica. As inscrições se encerram hoje e podem ser feitas pelo site www.faac.unesp.br/ulepicc2008 e também no câmpus da Unesp.