Na Espanha, quando alguém se refere a “coisa antiga” é porque é do tempo que o Brasil nem havia sido descoberto. Aonde mais poderíamos encontrar uma cidade com 1.180 anos de história, senão na Europa, ou na Ásia? Um exemplo de cadinho cultural que funde as artes de diversas civilizações é Múrcia, no Leste da Espanha, junto ao Mar Mediterrâneo. É o chamado Levante Espanhol, porque lá o sol se levanta todas as manhãs, indiferente às aflições de cada um..
Múrcia, a Capital da província do mesmo nome, foi fundada pelos árabes no ano 825, mas a sua atmosfera é de uma grande capital européia com seus cafés e bulevares. Lojas de grifes famosas, centros universitários que nos convidam a entrar e o bulício da juventude que vem do mundo inteiro para estudar na suas escolas e lotam os bares com mesas nas calçadas para o “tapeo”. É como eles chamam os petiscos, os nossos beliscos para acompanhar a cerveja bem maltada que eles adoram. Alguma coisa que tapa uma fatia de pão. O “tapear” nosso vem daí. Enganar (a fome).
Múrcia é a terra dos Segura, dos Molina, dos Oléa, sobrenomes que soam familiares porque, daquela região partiram muitos imigrantes para o Brasil, no início do século passado. Os moradores adotaram no sobrenome a mesma denominação do principal rio, o Segura. Suas águas foram garantia de boas colheitas de frutas e verduras, num território de clima semi-árido.
Para irrigar as terras altas e poder aumentar as áreas de plantio, os árabes inventaram no século 7 a roda d’água – os molinos –, que aproveitava a própria força hidráulica produzida pela correnteza do curso de água para redistribuir o líquido, realmente precioso num lugar semidesértico.
As oliveiras centenárias garantem até hoje o óleo sempre presente na dieta mediterrânea. Os frutos da horta são sempre oferecidos aos visitantes. O tomate, por exemplo, tem um sabor inesquecível, pela ausência de acidez. A expressão da produção agrícola é tão forte que tem também as suas raízes folclóricas. Uma das grandes festas é a da eleição da Rainha da Horta, na primavera.
Nos arredores da Capital existem outros destinos turísticos interessantíssimos. A 45 minutos de carro está Caravaca de La Cruz, cidade medieval onde os anjos fizeram a revelação daquela que seria a “vera cruz”, a cruz verdadeira dos seguidores de Cristo, com dois braços paralelos.
No litoral está Cartagena, dominada pelos romanos em 209 a.C. e que já foi objeto de reportagem anterior. A famosa Lorca, também bem próxima, tem castelos, muralhas e igrejas cujas histórias têm origem há muitos séculos. Mais para o norte o turista pode percorrer a rota do vinho feito com a uva monastrell, principalmente, nativa da região e uma das melhores cepas do mundo.
Parreiras e cantinas podem ser visitadas para degustações e aulas dadas pelos enólogos sobre a maneira de avaliar as qualidades do vinho.
* O professor de jornalismo da Unesp e jornalista-colaborador do JC viajou a convite do Centro Oficial de Turismo Espanhol, da Ibéria e do Turismo de Múrcia.