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Cuidados com a agricultura


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Às vésperas do início do plantio da nova safra de grãos nas regiões sudeste, sul e centro-oeste, os produtores rurais brasileiros têm manifestado preocupação diante da queda dos preços das principais commodities agrícolas no mercado mundial. Eles têm razão porque nos últimos sessenta dias as cotações de alguns dos produtos mais negociados na bolsa de Chicago recuaram significativamente como nos casos do milho (-30%), soja (-25%) e trigo (- 10%). Ainda estão em níveis superiores aos de um ano atrás, mas não deixa de ser preocupante a combinação da queda de preços no mercado com a alta nos custos da produção devido principalmente ao aumento dos insumos derivados do petróleo.

Os agricultores têm respondido bem aos incentivos oficiais em matéria de crédito de custeio e ao acesso facilitado para investimentos em tratores e demais implementos, mas o governo deve ficar muito atento para evitar atrasos na liberação dos recursos. Uma perda de estímulo ao plantio agora seria uma verdadeira tragédia do ponto de vista do combate à inflação e de nossa própria solvabilidade externa.

Nesses anos recentes em que muitos países e populações dependeram da importação de alimentos para fugir do espectro da fome, nossa agricultura tem demonstrado uma enorme eficiência, garantindo a autonomia alimentar dos brasileiros e, não é somente isso, tem sido a responsável pelo fato que estamos solváveis no comércio exterior. Os únicos produtos cuja exportação se ampliou de forma significativa foram os produtos do agro negócio. Com um crescimento da produção da ordem de 3% a 3,5% ao ano e com ganhos de produtividade ainda mais significativos, a agricultura pode aumentar a quantidade exportada e beneficiar-se de uma elevação importante dos preços externos, garantindo os sucessivos superávits em nossa balança comercial.

A economia mundial já dá sinais que não vai sustentar o mesmo dinamismo que apresentou desde o início da década e não se deve esperar que os preços continuem aumentando e o comércio se expandindo na velocidade destes últimos 4 ou 5 anos. Nesse período de grande crescimento mundial, com destaque para emergentes como a China e os demais asiáticos (onde as taxas de expansão do PIB se mantiveram acima de 6% anuais), houve um aumento extraordinário no consumo de alimentos, dos minérios, metais e praticamente de todas as matérias-primas, sem que houvesse um aumento da oferta capaz de atender à demanda. Então, no curto prazo, caíram os estoques e os preços subiram no mercado internacional.

O caso do petróleo é emblemático: nos últimos 15 anos não houve aumento dos investimentos na pesquisa, nem na exploração e menos ainda no refino. Não restou praticamente capacidade ociosa. Embora isso não se aplique a todos os paises, vai continuar a haver um excesso de demanda não atendida a nível mundial. O Brasil é menos afetado porque não tem mais problema de abastecimento de petróleo e pode até ser beneficiado com a situação mundial. Mas a alta nos preços do petróleo já aumentou os custos da produção agrícola e ameaça a lucratividade do setor.

Por essas razões não podemos descuidar dos incentivos ao plantio da safra, pois o resultado da agricultura vai ser determinante no combate à inflação e decisivo para a saúde de nossas contas externas em 2009.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. e.mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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