O consumismo é o sonho de todos os pobres consumado por todos os emergentes sociais. Os verdadeiros ricos consomem pouco, pois de nada precisam para demonstrar status social. Não ostentam e nem necessitam se afirmar em cima de objetos, grifes e todo um monte de penduricalhos para demonstrar seu poder. Deu nos jornais que um jovem australiano ficou 10 horas e 46 minutos diante de uma loja de artigos eletrônicos em Sidney, sob um frio de rachar, só para ser o primeiro ser humano do planeta a comprar o novo iPhone 3G, lançado simultaneamente em 22 países. Em virtude do fuso horário, Austrália e Nova Zelândia foram os primeiros países a começar a vender o aparelho. Só por isso o rapaz teve os seus minutos de fama, pois apareceu em jornais, tevês e sites de todo o mundo.
Por ironia, Steve Jobs, o dono da Apple, fabricante do aparelho, só anda de tênis, calça jeans e camisetas compradas em lojas populares. Ele e o seu concorrente Bill Gates devem rir desses fanáticos que invadem as lojas cada vez que alguma geringonça eletrônica ou um programa diferente é lançado. Bill já pediu demissão da Microsoft para dedicar-se à fundação filantrópica que fundou com sua mulher e para a qual já doou dois terços a fortuna de 56 bilhões de dólares. Quem sabe por remorso ou por necessidade de purgar os pecados de ter enchido os bolsos à custa da idiotia consumista de milhões de pessoas.
Em seu livro “Cerca e Janelas”, a jornalista canadense Naomi Klein revela que as empresas de grife apostam na baixa resistência humana diante do supérfluo. As promoções de marcas aproveitam-se da falta de valores, tradições e heranças filosóficas e religiosas. O indivíduo faz de objetos e serviços a sua devoção, ou os adotam como o centro da sua existência. São os seus totens de adoração. Uma espécie de volta à sociedade tribal. Algo fundamental para o processo de criação de sua identidade. As marcas passam a ocupar um espaço antes ocupado por outras instituições, como a igreja. Assim são construídos novos símbolos e imagens que vão além das funções do produto. O viciado em Apple prega o ódio à Microsoft; o fã de Guerra das Estrelas não quer saber de Harry Potter. Os cultuadores de Harley-Davidson tatuam no braço a logomarca da fábrica de motos.
Os ricos de dinheiro e inteligência sabem bem que para ser feliz necessita-se de muito pouco. Rico gasta pouco, come pouco e, principalmente, nunca mostra o que tem.Para que ter um guarda-roupa com centenas de sapatos, vestidos, ternos, camisas, relógios, jóias e outras quinquilharias se só temos um corpo e, ainda, com curto prazo de validade? Há aqueles que colecionam livros, formam imensas bibliotecas com obras que nunca vão ler, só para se dizerem “intelectuais” e “cultos”. Se vivermos até aos 80 anos, mesmo lendo dois livros por semana, conseguiremos repassar, no máximo, 7 mil exemplares.
Há um ditado que diz que Deus dá dinheiro para alguns para castigá-los, como se desse noz para o desdentado. Claro que dinheiro é uma coisa boa: dá independência. Permite que a sobrevivência deixe de ser prioridade nas nossas vidas, para que possamos nos dedicar mais ao conhecimento da realidade, e até a interferir no processo histórico. Temos responsabilidade perante o outro, a natureza e o mundo que deve ser legado às futuras gerações. Ser viciado em altruísmo deve nos deixar muito feliz. Seria o lado contrastante à idiotização pelo consumo. No entanto, permitimos nos transformar em seres obtusos, cegos e autômatos, prontos para receber goela abaixo o que a indústria nos empurra. Se você não tem um iPhone está à margem da aldeia global. McLuhan sonhou com a hipótese de unir o mundo, como se fosse uma aldeia, mediante as facilidades para nos comunicar e dialogar. Os projetos eletrônicos que deveriam viabilizar a comunicação de todos com todos, são inacessíveis para a maioria. Custam caro, são concebidos para ficarem logo antiquados. Saem de fábrica com o chamado “obsoletismo programado”. Isto acaba criando um apartheid digital, separando ainda mais as pessoas.
Admirar produtos pela sua qualidade, durabilidade ou mesmo status e conforto é o problema menor. A fixação e o fanatismo é que causam preocupação.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC