Já se passaram dois meses, mas como o assunto passou quase ingnónito, resgato o tema: o Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária, Conar, e órgãos de defesa do consumidor consideraram abusivos e eróticos os anúncios da campanha de uma das maiores redes do ramo de confecções, para o Dia dos Namorados. O mote da campanha era algo como deixar de lado o convencional e partir para coisas mais “ousadas”, sempre com cunho sexual. A empresa achou melhor mudar a campanha, porque, além de tudo, o tiro saiu pela culatra. Choveram reclamações para a empresa que, ao mesmo tempo em que quer vender roupas para toda a família, expôe as crianças, que visitam a loja com seus pais, a fotos eróticas.
O fato me faz refletir sobre a falta de discernimento de alguns “gênios” da nossa publicidade, com relação ao conteúdo de suas peças. A mídia cria uma cultura de permissividade, de promiscuidade até, e passa a acreditar que todo mundo vai achar normal o que não é normal. Apesar de boa parte da população ir atrás da onda, há cada vez mais pessoas que param para pensar: “Espera aí, não dá para minha filha de 5 anos de idade, ver apelos esse tipo de coisa, na tv ou na loja”. E protesta. Afinal, somos uma democracia, não é mesmo? Se algumas minorias (tão barulhentas que parecem maioria) podem protestar, porque quem teima em defender o mínimo de decência (palavra em desuso) não pode? Aliás, isso dá um ótimo resultado. Presenciei uma cliente de supermercado, à minha frente na fila do caixa, chamar o gerente e solicitar a retirada de uma revista, digamos adulta, que estava exposta num display ao lado de um gibi. Dias depois, uma dessas ex-BBBs, já não estava mais ao lado do Pato Donald.
Engraçado: erotiza-se a sociedade até a tampa, e depois basta dizer “use camisinha” ou “legalize o aborto”? Por que não incentivar uma nova cultura, com outro tipo de apelo?
O fato é que há baixaria demais na propaganda. Como gosto de futebol e meus filhos pequenos também, assim que termina o primeiro tempo, mudo correndo de canal. Isso porque, logo depois do craque explicar como foi o gol, entra um comercial de cerveja com aquele conteúdo que vocês já conhecem.
Talvez você, amigo leitor, pense com seus botões: “como o Zanin é moralista” (não sou), ou “o cara não gosta de mulher?” (gosto, e muito, da minha), ou ainda: “ele é retrógrado” (acredito que certos valores são inegociáveis e perenes).
Mas considero hipocrisia subverter o que é sublime apenas para vender. Além do mais, considero a publicidade um veículo que pode ser valioso, até, para educar. Valores como paz, amizade, fraternidade, e respeito ao meio-ambiente podem rimar com valorização de marca e boas vendas.
O autor, Roberto Zanin, é jornalista e colaborador de Opinião