Nunca me deparei com algo sobrenatural em minhas pescarias, e olhe que já faz mais de 50 anos que eu vivo beirando rios por esse interior afora, mas notícias de assombração é o que não faltam nessas rodas de pescadores. Isso eu atribuo ao hábito contumaz dos pescadores em contar umas mentirinha de vez em quando.
Meu avô, que não era pescador, logo ele não era mentiroso, contou-me certa feita que lá pros lados de Araçatuba, na beira do Tietê, tinha um lugar chamado Porto do Aracanguá, na foz de um rio que era um verdadeiro ninho de dourado e tabarana.
Mesmo sabendo que o rio era bom de peixe, os pescadores da região evitavam pescarias em suas águas, pois esse afluente do Tietê em suas cabeceiras cruzava com a estrada de ferro da Noroeste, e esse era o motivo da cisma dos pescadores, pois corria na região uma história que vinha desde os tempos da construção da linha, por volta de 1910.
As tribos indígenas da região, armadas com arco e flecha e outras “armas de uso exclusivo dos indígenas”, tentavam resistir o avanço do “homem civilizado” e foi numa dessas resistências que ocorreu um fato que até hoje ainda assusta os pescadores que se aventuram a pescar naquele rio.
Diz a história que além da então vila de Araçatuba, num posto avançado que se chamava Aracanguá, estava pronta para a inauguração um pequeno barracão onde seria a estação de mais um possível lugarejo e quem sabe uma futura cidade. Algumas pessoas interessadas na chegada desse importante instrumento de progresso, que era o trem de ferro, estavam na estação para prestigiar a chegada do primeiro trem, que não chegou.
Pois ao passar o rio o trem enfrentava um pequeno aclive e isso era suficiente para a maria-fumaça perder velocidade, e foi aí que se deu o fato marcante, quando um cacique distribuiu sua tribo ao longo da linha por um trecho de mais o menos uns 100 metros, e ele ficou escondido sobre o barranco, armado com o arco e flecha.
Quando o trem passou o rio para subir o aclive, foi perdendo velocidade e aí o cacique disparou, atingindo o maquinista, que na visão ingênua do silvícola era o grande agente da destruição. Ferido no pescoço e perdendo muito sangue, não teve outra alternativa senão parar a máquina logo adiante, justamente onde a tribo estava escondida ao longo da linha. Ao cercarem a máquina, o maquinista já não contava com a presença de dois companheiros, que fugiram mato adentro.
Dominado pelos índios enfurecidos, que lhe tiraram as roupas, botas e chapéu, pois isso era uma grande novidade e objeto de cobiça por parte dos índios, com o corpo nu o maquinista foi submetido a um ritual de maldição onde o cocar de penas coloridas roçava em seu corpo enquanto o pajé resmungava alguma oração para depois jogá-lo ao rio.
Ainda hoje os pescadores evitam pescar nas águas desse córrego. Os mais teimosos arriscam em vão tirar algum peixe de suas águas, pois ao fazê-lo alguns pescadores dizem tirar enroscado em seus anzóis uma mão seca, parte daquele esqueleto humano. É a maldição do cacique que ainda preserva as águas do rio, que era a fonte de alimentação de sua tribo.
Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias