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Sim, eles superaram limitações físicas

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Jorge é músico e professor de informática. Sandra Mara é dona de casa. Iara é vocalista de uma banda de rock e produtora de um jornal de uma rádio online. Carolina faz faculdade de design. Fábio é farmacêutico e campeão de luta de braço. Priscila estuda educação física e adora artesanato. Provavelmente, estas seis pessoas nunca se cruzaram, embora carreguem uma característica em comum: conseguiram superar limitações físicas surgidas no decorrer da vida e hoje se mostram capazes de realizar coisas que muita gente duvidaria.

Jorge Herrera Lopes perdeu a visão quando tinha 6 anos de idade. Atualmente, ele é professor de informática e é capaz de se locomover sozinho pela cidade. Sandra Mara Volpi Martinez Luciano sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2003 e perdeu todos os movimentos dos membros e da face. Hoje em dia, ela consegue se virar sem a ajuda dos outros.

Surda de nascença, Carolina Prado Misaglia, 21 anos, aprendeu a falar, fez aulas de balé e adora sair para dançar. Fábio Manfrinato teve paralisia infantil quando tinha 1 ano de idade e hoje possui diploma em curso superior de farmácia, sem contar que acumula cinco títulos em campeonatos mundiais de luta de braço.

Priscila Silva Andrade nasceu com fissura labiopalatal e sem um dos braços. Atualmente, aos 21 anos de idade, cursa educação física e sonha em ter sua própria academia. Também é craque em trabalhos artesanais com agulha (crochê, bordado) e gosta de nadar e de andar de bicicleta.

Analisadas sob a ótica daqueles que se consideram “normais”, tais habilidades costumam ser comparadas a prodígios. Na verdade, representam apenas uma forma que essas pessoas encontraram para continuar tocando a vida naturalmente.

“As pessoas que têm algum tipo de deficiência costumam organizar sua vida levando em conta as limitações físicas que possuem”, explica a terapeuta ocupacional Márcia Almendros, do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-Centrinho/USP).

“Ninguém é totalmente limitado a ponto de não ter a nada para oferecer à sociedade. O correto seria que déssemos mais valor aos talentos que a pessoa tem (e que muitas vezes estão ocultos) do que às suas supostas incapacidades”, avalia ela.

A professora Ana Cláudia Bortolozzi Maia, do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, lembra que as deficiências se manifestam de maneira variada em cada indivíduo.

“Não temos como afirmar, por exemplo, que um cego conseguirá ou não fazer isto ou aquilo. Alguns deficientes são capazes de praticar esportes, ao passo que certos ‘não-deficientes’ não”, diz Maia, que faz questão de ressaltar que pessoas tidas como “normais” (ela prefere o termo “não-deficiente”) também apresentam limitações - de ordem física, inclusive.

“O que não podemos é nos conformar com as situações desfavoráveis”, pensa Manfrinato. Nos relatos a seguir, o leitor terá a chance de conhecer com mais detalhes as histórias de cada uma das pessoas citadas no início da reportagem. Histórias de vencedores, diriam alguns. Talvez... O certo é que são seres humanos que não aceitaram que a vida lhes desse um ‘não’ como resposta.

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Jorge abriu mão de dirigir, mas se sente realizado por ensinar informática

Quando tinha 6 anos de idade, Jorge Herrera Lopes perdeu a visão, por conta de uma atrofia do nervo ótico. “Foi uma coisa rápida. Eu via normalmente; uma semana depois de confirmado o diagnóstico, eu já não enxergava quase nada”, conta ele, que hoje tem 42 anos.

Vivendo na “escuridão” (se é que esse termo pode ser considerado apropriado neste caso), Jorge teve de abrir mão de um sonho de infância: o de dirigir. “É que quando eu era criança, adorava brincar com carrinhos”, explica.

Se não pode realizar o antigo desejo de ser motorista, Lopes teve a chance de se deparar com outros sonhos no decorrer da vida. Aos 16 anos, por exemplo, conheceu a música e se apaixonou. “Eu fazia curso de artesanato no Lar Santa Luzia para Cegos quando conheci uma pessoa que tocava violão e cantava. Foi com ele que aprendi os primeiros acordes. Mais tarde, formamos uma dupla sertaneja chamada ‘Paulo César e Rodrigo’. Eu era o Rodrigo”, explica Jorge, que continua adotando o mesmo nome artístico, só que em carreira solo.

Apresentou-se em emissoras de rádio, festivais de música sertaneja e bailes. Até que, em 2005, conheceu a informática, fato que iria transformar sua vida. “Eu já tinha ouvido falar de computadores e tinha muita vontade de usar. Certo dia, um voluntário foi até o Lar Santa Luzia e me ensinou a decorar o teclado. Depois disso, passei a treinar no ‘micro’ que é da minha namorada, até pegar o jeito com a máquina”, conta Jorge.

O interesse dele em relação aos computadores foi crescendo cada vez mais, a ponto de Jorge ter se tornado professor de informática no Lar Santa Luzia. Ele utiliza programas especiais, destinados aos deficientes visuais, que “lêem” as informações disponíveis na tela do computador.

Um detalhe “interessante” na forma como os cegos se relacionam com a informática é que eles não precisam ligar o monitor para mexer no computador. “Como todos as informações vêm até nós pela via sonora, a tela acaba se convertendo um acessório desnecessário, no nosso caso”, diz ele, que é capaz de se locomover sozinho pela cidade, auxiliado apenas por uma bengala e pelos demais sentidos: o olfato, a audição, o tato...

“Todas as informações são importantes para nossa orientação. Quando passamos próximos a uma farmácia, é fácil saber, pois sentimos cheiro de remédio”, explica Jorge.

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Apaixonada por música e independente

Iara Campregher Pasqualini tem 25 anos e adora rock ’n’ roll. Embora atualmente viva em São Paulo, onde trabalha como produtora de um jornal de uma rádio online, costuma vir a Bauru todos os finais de semana para se dedicar à banda da qual é vocalista.

À primeira vista, a história dela não tem nada de especial, não fosse o fato dela ela ser cega. “Nasci com malformação na retina”, explica. “Minha vida sempre foi normal. Aqueles que enxergam podem não entender como somos capazes de nos virar, mas nós, que somos cegos, conseguimos nos adaptar bem à falta de visão”, diz ela.

Iara sempre gostou de cantar e de ouvir música e cursou jornalismo na Universidade do Sagrado Coração (USC). “A grande dificuldade que eu tinha, na época da faculdade, era encontrar literatura e material didático em braile”, comenta.

Iara não faz idéia se o amor que nutre pela música tem alguma relação com o fato de ser cega. “Não dá para saber. Talvez, por não poder enxergar, eu tenha passado a dar mais atenção aos demais sentidos e consegui perceber o quanto a música é maravilhosa”, acredita.

Durante uma época, ela tentou tocar guitarra, mas acabou não se dando muito bem com o instrumento. Tempos depois, teve a oportunidade de se tornar vocalista de uma banda bauruense chamada Alcatraz.

É fã incondicional do Scorpions e já teve a oportunidade de ir a três shows que a banda alemã fez em São Paulo. “Interessante que, quando eu era adolescente, o pessoal evitava me convidar para a balada, pois achava que eu ia dar trabalho. Hoje, saio sozinha, vou para onde bem quiser e volto para casa quando bem entender”, afirma.

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Campeão

Fábio Manfrinato teve poliomielite (paralisia infantil) quando tinha 1 ano de idade e teve comprometido o desenvolvimento de suas pernas. Por conta disso, usa muletas desde que começou a andar, isso quando tinha 5 anos de idade. Não que isso tenha afetado negativamente a vida dele.

“O ser humano é totalmente adaptável. Se você nasce desprovido de um membro, isso acaba não fazendo falta, pois você aprende a viver sem”, diz ele. Quando criança, Fábio costumava participar de diversas brincadeiras com os colegas. “Inclusive, eu jogava futebol e até que me saía bem como goleiro”, gaba-se.

Ele ainda era adolescente quando conheceu a luta de braço, categoria esportiva que o tornaria famoso em toda a cidade, por conta dos inúmeros títulos que conquistou. Ao todo, foram 11 títulos estaduais e mais 11 nacionais, sem contar cinco campeonatos mundiais.

“No começo, os adversários até achavam que encontrariam facilidades quando me enfrentassem, pelo fato de seu ser deficiente. Hoje, porém, eles já me conhecem e sabem que têm de me respeitar”, diz Fábio. “Acredito que cada pessoa tem um dom a ser encontrado e desenvolvido. Eu ainda estou à procura de outras habilidades ocultas em meu interior. Sei que ainda tenho muito a oferecer ao mundo”, afirma.

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