O empresário Cynise Pereira Leite, 74 anos, é um apaixonado pela roça. Apesar de ter sido criado na cidade, ele não consegue passar uma semana sequer sem ir para sua fazenda no distrito de Tibiriçá.
“A minha vida foi sempre ligada à roça. Eu sou um apaixonado por terra. Sou meio mulher de malandro. Estou sempre apanhando (tendo prejuízos), mas não largo da roça. Estou desde 1958 nessa vida”, afirma ele.
Morando em Bauru, a rodovia Marechal Rondon se transformou numa espécie de ponte entre a cidade e o campo para o empresário. É uma freqüência tão comum como a ponte aérea entre Rio e São Paulo, utilizada por milhares de pessoas todos os dias.
Tudo começou com um pedaço de terra que ganhou do pai, quando ainda era jovem. Depois veio uma fazenda em Uru, em Avaí e finalmente a de Tibiriçá. Em todas, o café foi presença obrigatória.
Em razão dessa ligação tão estreita com o campo, Cynise ocupou o cargo de secretário municipal de Agricultura por mais de quatro anos durante o governo Nilson Costa. Além da experiência política, ele fala nesta entrevista concedida ao Jornal da Cidade sobre o tempo em que passou no Exército, no extinto Banco Bandeirantes do Comércio, na Delegacia da Receita Federal e da experiência como produtor rural e como proprietário de um acampamento em Tibiriçá que recebe de 5 mil a 6 mil alunos todos os anos, além de jovens e adultos em busca de diversão e novos conhecimentos. Acompanhe!
JC - O senhor nasceu em Bauru?
Cynise - Sim. Sou bauruense. Nasci em 1933, na rua Batista de Carvalho, 9-24.
JC - Então, o senhor acompanhou o crescimento da cidade.
Cynise - Quando eu nasci, Bauru ainda era uma cidade pequena. A gente andava descalço pela rua. Ia brincar nos córregos da redondeza, ia buscar água na mina, ia bater peneira na leitoinha (córrego), que fica perto do Recinto Mello de Moraes.
JC - Bater peneira é pescar em lugares rasos?
Cynise - Isso. Nós pescávamos peixes pequenos, como lambari. Era mais por diversão.
JC - Hoje, quando o senhor dá uma volta pela cidade e vê o tamanho que está Bauru, isso te surpreende, já que conheceu a cidade ainda pequena?
Cynise - Eu sinto saudades de como a cidade era antigamente e também orgulho de ver como ela está hoje. Infelizmente, não está do jeito que a gente gostaria. Nós tivemos alguns períodos de bons governos, quando a cidade avançou. Depois passamos por períodos de turbulência e isso causa tristeza, porque sabemos que a cidade poderia estar muito melhor do que está hoje.
JC - O senhor fez parte do governo Nilson Costa. O que achou da experiência?
Cynise - Eu fui secretário municipal de Agricultura por mais de quatro anos. Serviu para eu ver de perto as dificuldades que existem em uma administração pública. Às vezes, você quer fazer e não pode, não tem condições. Claro, tem horas que também falta vontade política de fazer as coisas. Não é tanto a falta de dinheiro que impede. Tem muita coisa que dá para fazer com pouco dinheiro. Eu acho que não precisa fazer só obras faraônicas. Se fizer uma quantidade grande de pequenas obras, quando somadas, elas trazem um benefício muito grande. Às vezes, falta esse pensamento aos administradores. O tempo vai passando e eles deixam de fazer as pequenas coisas que são possíveis esperando pelas grandes obras.
JC - O senhor foi uma vez candidato a vereador e não foi eleito. Por que não tentou uma segunda vez?
Cynise - Primeiro, porque eu vivi por muito tempo na roça. Eu tinha uma propriedade que ficava cerca de 100 quilômetros daqui. Eu passava a semana lá. Eu morava e trabalhava lá. A minha vida foi sempre ligada à roça. Eu sou um apaixonado por terra. Sou meio mulher de malandro. Estou sempre apanhando (tendo prejuízos), mas não largo da roça. Estou desde 1958 nessa vida.
JC - O senhor começou fazendo o quê?
Cynise - Tudo começou quando meu pai comprou um pedaço de terra e deu uma parte para mim. Isso em 58. Em 61, nós compramos mais uma fazenda em Uru. Em 63, eu casei e levei minha mulher para morar comigo lá.
JC - Vocês plantavam o quê?
Cynise - Nas duas fazendas, nós tínhamos café e gado. Em 1979, eu comprei uma outra propriedade em Avaí, perto da praça de pedágio. Também plantei café. Eu tinha uma lavoura muito boa. Mas infelizmente, eu peguei duas geadas lá que me entristeceram demais. Depois disso, resolvi dar uma parada com o café. Vendi as terras de Avaí e comprei outras no distrito de Tibiriçá, onde estou até hoje.
JC - Quando o senhor comprou o terreno em Tibiriçá, pensava em fazer o que com a terra?
Cynise - Como eu havia passado boa parte da minha vida na roça, eu não aceitava a idéia de ficar na cidade e não ter nenhum pedaço de terra para plantar.
JC - O senhor voltou a plantar café?
Cynise - Na propriedade de Tibiriçá haviam 9 mil pés de café. Eu fiz duas colheitas e como era uma lavoura muito antiga, eu erradiquei. Só agora que estou me preparando para plantar café de novo.
JC - Por que decidiu voltar?
Cynise - Porque nós estamos fazendo turismo rural na fazenda de Tibiriçá. Para isso, é preciso que haja vida na propriedade, ou seja, que tenha produção. O turista quando vai lá, ele quer passear, mas também quer conhecer uma lavoura de café, quer colher, quer ver o beneficiamento. Eu tenho equipamentos. Minha idéia é fazer um programa “do cafezal ao cafezinho”, em que o turista pode acompanhar todo o processo. Desde a plantação até o café na mesa, sendo servido.
JC - Desde quando existe turismo rural na fazenda de Tibiriçá?
Cynise - Desde 1997. Nós fomos assessorados por funcionários do Sebrae, inclusive um que foi secretário de Turismo em Lages (SC), cidade onde nasceu o turismo rural. E estamos até hoje no ramo.
JC - E como está a procura por esse tipo de turismo?
Cynise - Ele começou bem devagar, depois foi aumentando. Hoje, o nome do acampamento de Tibiriçá consta nas publicações sobre turismo do governo do Estado. A gente tem procurado fazer alguma coisa mais profissional. Tenho participado de cursos sobre turismo rural, sobre gastronomia, que também é o nosso forte. A comida do campo é uma das nossas características. Além disso temos criação de porcos, ovelhas, cavalos, gado de leite. E tudo isso faz parte do programa. Temos também chalés para quem quer passar o fim de semana e alojamentos para grupos grandes. Na época do Carnaval, nós recebemos o pessoal das igrejas que passam os quatro dias do feriado lá. Tem piscina, tem lago e uma porção de outras coisas para distrair o visitante.
JC - Quantos visitantes vocês recebem, em média, por ano?
Cynise - Nós temos recebido de 5 mil a 6 mil crianças por ano, porque passar um dia no campo faz parte do currículo de praticamente todas as escolas. Então, as crianças vão e passam o dia lá. Agora, no segundo semestre, temos crianças lá quase todos os dias. Nós recebemos alunos de um raio de 150 quilômetros de Bauru. Vem gente de Araçatuba, Birigüi, Novo Horizonte, Ourinhos e outras cidades. Quanto aos visitantes adultos, não tenho idéia de quantos nos visitam. É meio cíclico. Tem época que não aparece ninguém. O pessoal aproveita para ir mais no verão.
JC - O senhor falou que a gastronomia também é o forte de vocês. E isso pode ser sentido por aqueles que freqüentam a Fazendinha do JC no Recinto Mello Moraes. Desde quando vocês são responsáveis pela cozinha da Fazendinha?
Cynise - Desde a fundação da Fazendinha. Na época, eu era secretário de Agricultura e a nossa sede era dentro do recinto. O Renato (Zaiden) explicou que a idéia era montar lá uma cozinha de fazenda. Ele mandou fazer um fogão a lenha e não tinha quem cozinhasse. Foi aí que eu entrei na história. Meu primeiro prato foi um arroz com lingüiça. Mas depois a coisa foi ficando mais incrementada até virar o que é hoje, um lugar que atrai muitas pessoas, a ponto de ter de contratar uma equipe para ficar na cozinha. Mas mesmo assim eu ainda cozinho lá de vez em quando.
JC - E o que é que o senhor faz quando não está envolvido com o acampamento ou com os afazeres da cozinha? O senhor descansa fazendo o quê?
Cynise - Eu descanso trabalhando (risos). Não tenho costume de sair de casa. Mas esses dias eu fiz uma extravagância. Na inauguração de uma casa noturna aqui em Bauru, eu acompanhei meus filhos, fui para a balada, tomei uns uísques, dancei, fiz o que tinha vontade. Mas isso é muito raro. Eu prefiro ficar em casa. Eu me sinto bem lá.
JC - O senhor tira férias?
Cynise - Às vezes. Teve um período que eu trabalhei cinco anos direto. Tirei apenas um dia de folga para passear no Paraguai. Isso foi quando eu montei uma loja de parafusos e ferragens, antes de assumir a Secretaria de Agricultura. Sete horas eu abria a loja e ficava lá até tarde. Eu sempre preguei que comércio é prestação de serviço. Tinham duas lojas vizinhas que vendiam o mesmo que eu. Então, para ganhar os cliente, eu teria de prestar o melhor serviço. Com isso, eu abria a loja aos domingos para atender os casos de emergência dos clientes. Para mim, o trabalho nunca foi um fardo. É claro que chega uma hora que você cansa, mas nunca tive problema com isso.
JC - O senhor disse que quando era criança gostava de “bater peneira” nos córregos de Bauru. O gosto pela pescaria continua?
Cynise - Ainda gosto, mas não tenho tido tempo. Fui várias vezes para o Pantanal, mas meu companheiro de pescaria morreu. Depois disso, fui convidado para algumas pescarias. Mas era aquele negócio, na bagagem estavam meia dúzia de caixas de uísque, não sei quantas caixas de cerveja, aí quando perguntava quantas varas estavam levando eles respondiam uma ou duas. Então, eles não estavam indo para pescar, mas para beber. Não dá.
JC - Parece que o senhor também gosta de veículos antigos. De onde vem essa paixão?
Cynise - Eu sou do tempo da lambreta. Fazia zoada na cidade, mas não era como é hoje. Era diferente. Eu me lembro de muito pouco acidente sobre duas rodas. Hoje, parece que todo mundo está estressado, sempre atrasado, vivem costurando entre os carros. Eu participei de campeonatos de lambreta. Fui correr em Araraquara, em Avaré. Nunca tive um tombo sério.
JC - Qual foi seu primeiro emprego?
Cynise - Meu primeiro emprego foi como bancário. Foi depois de eu ter servido o Exército. Trabalhei no Banco Bandeirantes do Comércio durante quatro anos. Passei por quase todas as funções, menos de caixa. Saí do banco, fui trabalhar como chefe de pátio da Texaco. Quando instituíram o salário para periculosidade (trabalhava em contato direto com o combustível), passei a ganhar mais do que o gerente. Aí a Texaco terceirizou o serviço de pátio e fui dispensado. De lá, fui trabalhar na Delegacia da Receita Federal. Fiquei dois meses lá, não agüentei e pedi a conta.
JC - Por que não aguentou?
Cynise - Me trancaram em uma salinha com papel até no teto. Aquela não era a vida que eu queria para mim. No banco, eu tinha contato com o público. Na Texaco também. Eu ficava o dia inteiro andando.
JC - E como foi a passagem do senhor pelo Exército?
Cynise - Fiquei lá menos de um ano. Se dependesse da minha vontade, eu tinha continuado no Exército. Fiz curso de cabo e de sargento, mas não saiu nenhuma promoção. Eu não queria incorporar como soldado. Se tivesse sido promovido, eu teria seguido carreira e, hoje, poderia estar reformado como coronel, ou outra patente. A gente procura fazer na vida aquilo que gosta. Naturalmente, quando você faz o que gosta, às vezes, faz bem feito. Não é sempre, mas as chances são maiores.
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Perfil
Nome: Cynise Pereira Leite
Idade: 74 anos
Local de nascimento: Bauru
Mulher: Márcia Bessa Pereira Leite
Filhos: José Luiz e Cynise Júnior
Hobby: Mecânica
Livro de cabeceira: Não tem. Prefere ler jornais
Filme preferido: “...E o Vento Levou” e “Doutor Jivago”
Estilo musical predileto: Música clássica e MPB
Time: São Paulo
Para quem dá nota 10: Para Olga Bicudo, da Apae, e Sebastião Paiva, da Sociedade Beneficente Cristã
Para quem dá nota 0: Para os corruptos