Uma aventura do outro lado do mundo. Foi o que vivenciou o jovem bauruense Fabrício Cardoso Kiyomura, 23 anos, após ter encarado - e vencido - o desafio de chegar ao topo do Monte Fuji, vulcão que é um dos símbolos da Terra do Sol Nascente, o Japão, país onde Kiyomura mora - na província de Nagano-ken - e trabalha - em uma fábrica de componentes eletrônicos de computadores.
Nascido e criado em Bauru, mais especificamente na Vila Falcão, Kiyomura é um amante não só dos esportes, mas também das aventuras radicais. Por isso, munido de uma boa dose de coragem para encarar os obstáculos que uma escalada impõe, além da enorme vontade de ver “in loco” o nascer do sol no Monte Fuji - considerado um dos mais belos espetáculos da natureza de todo o planeta -, o bauruense, ao lado de um primo e da namorada, desbravou as trilhas do local em uma experiência cujas lembranças ele jamais se esquecerá e que, no texto a seguir, as relembra:
“No dia 10 de agosto, escalei o Monte Fuji, o 35º vulcão mais alto do mundo e que ainda está ativo, apesar de ser considerado baixo seu risco de erupção. A vontade vinha antes de eu chegar ao Japão, mas foi só neste mês que pude colocar em prática, pois o Fuji só fica aberto entre os meses de julho a setembro.
Decidido, disse que ia para o meu primo, Fábio Takashi Saito, também bauruense, 25 anos, e Vanessa Tagawa, 19 anos, natural de Adamantina (SP) (minha namorada). Eles se animaram e logo fomos providenciar o equipamento.
Saímos da cidade de Kofu-shi, província de Yamanashi-ken, às 15h30, e fomos em direção ao Fuji até a saída do ônibus que nos levaria à 5ª estacao do Monte Fuji. Às 17h20, saiu nosso ônibus e, às 17h50, já estávamos no início da trilha Yoshidaguchi rumo ao topo! Daí em diante seriam, no mínimo, 6h de caminhada intensa para chegar à cratera, que ficava a 3.776 metros de altura.
Sabíamos que a cada nível iríamos encontrar refúgios com oxigênio, caso fosse necessário. A idéia era ver o nascer do sol no último nível (o 10, nível da cratera). Nosso equipamento era composto por roupa de snowboard, lanterna de cabeça, kit de primeiros socorros, água, bebidas isotônicas, cereais, chocolate, coberta laminada, cajado para escalada, luva, touca e oxigênio em lata.
Comecamos nossa caminhada às 18h30 no nível 5, comeco da trilha. A primeira parte foi fácil. Subida em terra e pedregulho, mas foi fácil. Devagar e sempre chegamos no nível 6. Paramos para tomar água e continuamos até o próximo nível. Entre os níveis 6 e 7, foi um pouco mais difícil, pois começaram as pedras. Com auxílio do cajado e com algum esforco e ajuda dos braços, chegamos ao nível 7 depois de 2h de caminhada/escalada.
Já era 20h30, hora de descansar um pouco. Fizemos um breve lanchinho, quando demoramos cerca de 30 minutos, e seguimos em frente na escalada ate o nivel 8, onde chegamos por volta das 22h40 e descansamos mais um pouco. Continuamos a caminhada e, daí em diante, seriam mais 3h de caminhada/escalada.
O frio comecou a apertar e nesse nível ja vimos pessoas pedindo oxigênio nos refúgios, ou então utilizando oxigênio enlatado. Eu e meus companheiros não havíamos tido nenhum tipo de problema com a falta de oxigênio ate então.
Do nível 8 ao 9 foi a parte mais difícil e longa. Demoramos 1h40 e paramos várias vezes para descansar entre as pedras, pois já estávamos sentindo o cansaço, o frio e o peso da mochila aumentando nos ombros.
Tivemos que diminuir o ritmo, porque a respiração estava cada vez mais difícil, mas ainda não precisavámos de oxigênio. Quando parávamos, aproveitávamos para apagar as lanternas e ver o céu cheio de estrelas e tirar várias fotos. Lindo! Esses foram os melhores momentos da escalada. Deslumbrantes.
No nível 9, paramos no refúgio para tomar algo quente. Foi quando tive idéia de deixar minha namorada e meu primo descansando um pouco e fui procurar algo para nos esquentar. Encontrei um “hotel“ onde serviam lamen custando o quádruplo do preço. Na 9ª estação uma lata de Coca-Cola chega custar US$ 8,00, mas fazer o que.
Do nível 9 até a cratera no nível 10 foi bastante difícil. A trilha parecia interminável. Tínhamos de parar muitas vezes, pois não queríamos chegar ao topo muito antes do nascer do sol, uma vez que ali certamente congelaríamos de frio (-5º C ). Parávamos entre as pedras para ficar abrigados do vento. Foram momentos difíceis, mas valeu a aventura.
Respiração super complicada e várias pessoas parando para tomar oxigênio, inclusive minha namorada, que já estava muito cansada e sentindo demais a falta de oxigênio e o frio. Apesar de existir alojamentos no Fuji para descansar, não conseguimos vagas, pois estavam lotados, sem contar que chegam a custar US$ 70,00 por algumas horinhas.
Às 3h chegamos ao topo! Todos exaustos e ainda faltava 1h40 para o nascer do sol. Nos abrigamos entre as pedras e esperamos uma casa de bebidas quentes abrir para poder nos esquentar, onde tomamos um cafezinho e sopa de missô. Após a sopa, encaramos o frio para ver o nascer do sol. Foi maravilhoso o céu já alaranjado. Era 5h30 da manhã e o sol já estava começando a esquentar os ânimos e já podíamos ver a cratera do Fuji bem de pertinho.
Às 6h30, comecamos nosso caminho de volta. E esse, sem dúvida, foi o momento mais difícil de toda a escalada. Já não tínhamos mais a motivação de chegar ao topo e estávamos exaustos por não ter dormido nem uma horinha e o frio estava muito intenso. A trilha de volta era uma espécie de ladeira de terra com pedregulhos muito escorregadia e era muito comum ver pessoas caindo. De lá de cima só víamos as nuvens e paecia que estávamos mergulhando nas nuvens.
Foram 4h de descida fazendo apenas duas paradas de 10 min. Eu fazendo o dobro de esforço para manter os freios e não cair. Mesmo assim, perdi a conta de quantas vezes escorregamos, mas nada muito sério. Aprendi com a experiência o motivo pelo qual é importante usar um bom par de tênis de cano alto para esse tipo de atividade física.
No final da trilha, depois de 4h descendo, já sem água e sem dormir, nem podia mais sentir as pernas direito. Nos minutos finais tive que pegar uma leve subida e esse foi um momento que quase chorei de felicidade. Depois de 4h usando a musculatura para descer finalmente iria usar os músculos para subir. E o cansaco seria aliviado.
Finalmente cheguei na estação 5 novamente. Às 11h da manhã. Exausto, precisando de água, banheiro, comida, enfim, tudo que um ser humano precisa para sobreviver. Meus pés exaustos.Às 11h50, ja estávamos no ônibus rumo ao lar.
Passamos uma semana com várias dores musculares absurdas nas pernas e a sensação de que sou completamente maluco, mas feliz.
Bom… é isso. Agora a única coisa que sinto é dor. Muita dor. Mas amanhã sei que isso passa e só ficarão as lembrancas de como foi bacana ver o mundo lá em cima.
Qual será o proximo desafio? Ainda estamos pensando!”