Cultura

Sobre mundos: O Céu de Suely

Por Padre Beto | *Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar de ser sua cidade natal, Iguatu é, para Suely, símbolo da insatisfação. Grávida, a moça tenta a vida em São Paulo com o namorado. Meses depois, porém, volta a Iguatu, sem desistir de seu sonho de sair e encontrar um lugar onde possa viver em paz. Para concretizá-lo definitivamente, bola um plano para conseguir condições materiais.

A busca da paz no sentido mais amplo da palavra é o grande tema do filme de Karim Ainouz “O Céu de Suely”. Essa busca está, sim, ligada às condições materiais, mas essencialmente à identidade. Justamente por isso Iguatu, cidade de passagem, é símbolo perfeito para esta busca do ser humano por uma construção de um céu na terra, de um paraíso no inferno. A paz, como a felicidade, sempre foi um objetivo do ser humano. Não é por menos que, desde a Antigüidade, as palavras “Shalom”, “eirene” ou “pax” sempre foram formas de saudação cordial entre os amigos.

No Ocidente, por exemplo, os cristãos desejam-se mutuamente nas celebrações religiosas “a paz de Cristo” e no momento da morte de alguém, é praticamente inevitável ouvir a expressão “descansou em paz” (requiescat in pace). Se a paz como objetivo é algo inquestionável, o mesmo não podemos afirmar de sua compreensão. Muitos buscam a paz, mas poucos conhecem realmente seu significado.

Em primeiro lugar, devemos compreender que a paz, como a felicidade, deve envolver todas as dimensões de nossa vida. A paz de consciência, a paz individual e familiar, a paz entre grupos e nações, a paz espiritual e social não podem existir separadamente. A paz pode não ser eterna, mas ela possui, com certeza, uma clara exigência: o domínio total de todo espaço que envolve o ser humano.

Assim, a paz de consciência está intimamente ligada à paz familiar que não se desvincula da paz social. Uma sociedade marcada pela criminalidade, corrupção e violação dos direitos humanos é, com certeza, uma sociedade marcada por uma crise da instituição “família” e formada de indivíduos que vivem com freqüência a falta de paz interior ou o tão conhecido “peso na consciência”.

Outro aspecto importante para compreender o significado da palavra “paz” é a sua dimensão ética. É fundamental entender que paz não é uma situação alcançada simplesmente por uma via religiosa ou espiritual, mas basicamente ética. Afinal, a Paz é uma condição interior e social, na qual a vida é possível e pode livremente se desenvolver. Talvez aqui esteja a diferença entre felicidade e paz. Enquanto a felicidade consiste em um estado utópico, a paz é bastante concreta.

A paz se inicia com o que há de mais material, condição de desenvolvimento básico da vida: alimentação, moradia, trabalho, educação, saúde. Com estas condições podemos construir relações transparentes, ou seja, éticas entre os seres humanos: respeito, liberdade de expressão, direitos e deveres, responsabilidade, possibilidade de ser e se realizar como pessoa através de um trabalho. Todos estes componentes pertencem à construção da paz e nos ajudam em sua terceira dimensão, a condição interior.

Aquele estado de espírito que nos permite saborear a vida. Portanto, a paz não é algo que está no estado sobrenatural. Meditação e oração ajudam, mas a paz é construída essencialmente através de uma ação política e social. Como dizia Rosseau, “a melhor maneira de pedir a Deus é tornarmo-nos merecedores do que desejamos”. Um ótimo exemplo para entendermos a relação entre ética e paz é a nossa própria sociedade. A situação de violência, a qual a sociedade brasileira há muito tempo suporta, possui suas raízes na má distribuição de renda, nas péssimas condições de moradia de grande parte da população, na má qualidade do sistema de saúde oferecido pelo Estado e principalmente na impossibilidade de acesso à educação e cultura por muitos.

Com a perda do imaginário, do estudo, da cultura, da leitura ou do contato com as artes surge a insensibilidade que conduz o ser humano a um processo de brutalização. A base de toda esta estrutura que gera violência em nosso país é fundamentalmente uma falha de relação ética: o desinteresse pelo Outro. Isso começa na falta de retorno dos impostos pagos a setores essenciais como saúde e educação por parte do Estado, o individualismo das classes privilegiadas que se escondem em condomínios fechados e a criminalidade que domina a realidade das classes economicamente excluídas da sociedade de consumo.

Assim, construir a paz não significa simplesmente evitar violência, mas principalmente aumentar o nosso compromisso político e a nossa solidariedade, como também manifestar com mais clareza a nossa insatisfação diante do descaso em relação ao bem comum. “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto” (Ruy Barbosa).

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