Tudo aconteceu bem ali. Alguns dias atrás eu estava caminhando em uma avenida de movimentação considerável quando me deparei com ela. Confesso que à primeira vista me assustei, não estava esperando aquela surpresa. Pelo menos não daquela maneira. Não sei por que, mas fiquei envergonhado com aquele encontro. Nunca me deparara com tal situação.
Tão logo passou o susto, comecei a reparar em suas formas, seu semblante e a emoção que ela tentava expressar com aquele olhar. Transparecia algo incomum, certa inquietude. Ao refletir por um instante percebi que, na verdade, ela deveria estar com algum problema, afinal seus lábios estavam escancarados e o susto era evidente.
Pensei em perguntar os motivos que tornavam aquela ocasião tão sombria e agonizante, mas como ela não parecia disposta a responder, tratei de indagar a mim mesmo.
A primeira resposta que me ocorreu foi que talvez ela estivesse com medo. Afinal, a cidade já não é mais como antigamente. A velha Lençóis, aquela região pacata e serena, onde crimes eram raros e a paz parecia reinar já virou mais um de seus tantos livros. Hoje se rouba carro à qualquer momento e lugar. Nem as Igrejas são respeitadas mais. O número de vândalos parece crescer e a segurança já pode ser questionada. Quem tem carro precisa ficar de olho. Mas tudo bem, porque se você não tem carro, tem medo de andar à pé também. Mas a resposta não parecia solucionar o problema dela.
Pensei então que talvez ela estivesse angustiada com o número de bêbados e fugitivos que param todos nas ruas para contar histórias mirabolantes e extraordinárias por não ter dinheiro para voltar para casa ou comprar remédios. Fora os que perderam a vergonha e já vão implorando o miúdo pra “marvada”.
O incrível é que quando alguém indica as casas de pouso e serviços sociais eles saem à francesa, vez por outra xingando e ofendendo os cidadãos. Já não é possível perceber a linha tênue que separa seu direito à tranqüilidade do seu dever de cristão. Já não há mais tanta liberdade. Mas essa também não parecia ser a resposta que se enquadrava na feição dela.
Quem sabe ela não está simplesmente cansada com essa época de eleições, pensei. Também, não era para menos, são tantos os candidatos a vereador e estão inseridos em tantas áreas da sociedade que você quase não respira sem que um deles chegue com cara de cão sem dono suplicando o seu voto. E tem cada um! Acho que as pessoas pensam que para ser político basta ter carisma e popularidade.
Estou até começando a pensar na política como uma conversa a se resolver no boteco. Afinal, todos se sentem capacitados para representar com ênfase a população. Quem sabe no futuro não sobre um lugarzinho para mim, pensei.
Porém, essa idéia também não me pareceu plausível e foi então que a resposta do dilema que ela se tornara veio à tona.
E pude concluir que, na vitrine onde ela estava, vez por outra ela podia observar o próprio reflexo no vidro e percebia o quão perversa e imoral ela estava se apresentando para todos que transitavam naquela avenida. Pensei no que as crianças imaginariam ao vê-la exposta, ostentando seu despudor, toda escancarada e exibida daquela forma e até no tom de ironia que aquilo tudo soava em meio a uma cidade tão clássica como a nossa. E esse conjunto de verdades e princípios caíam tão assustadoramente sobre ela que não podia se conter de tão pasmada.
Explicava-se assim sua boca aterrorizada. Foi bem ali, na vitrine daquela avenida, que vi pela primeira vez a Boneca Inflável.
João Victor Moretto Boarato, 18 anos, estudante, chocado com a ousadia de uma loja de Lençóis Paulista