Quando ouvimos falar em Botox logo vem à mente os tratamentos estéticos para acabar com as indesejáveis rugas e outras imperfeições provocadas pela idade. Mas a importância médica dessa substância vai muito além disso. Há quase dois anos, o Hospital Estadual de Bauru (HEB) Arnaldo Prado Curvêllo utiliza a toxina botulínica, mais conhecida como Botox, para auxiliar na reabilitação de pacientes que por algum motivo têm dificuldades para se movimentar. O atendimento é feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na região, o centro hospitalar bauruense é o único a oferecer tratamento gratuito.
Estão entre os beneficiados com esse tipo de tratamento pessoas que sofreram acidente vascular cerebral (AVC), o popular derrame, paralisia cerebral, ou qualquer outro acidente que tenha provocado lesão na medula, limitando assim os movimentos dos pacientes.
A limitação ocorre porque os músculos afetados ficam rígidos e essa rigidez tira a elasticidade de mãos, pernas, braços e outros membros. A toxina botulínica tem como função relaxar o músculo afetado. Com isso, a pessoa vai retomando lentamente os movimentos.
Mas, de acordo com o neurologista Adriano Galesso, um dos três profissionais habilitados para as aplicações de toxina botulínica no HEB, o tratamento só dá resultados quando acompanhado por sessões de fisioterapia ou terapia ocupacional.
“Eu não aplico em pacientes que não estejam inseridos em algum programa de reabilitação. Se aplicar a toxina e a pessoa ficar em casa parada o efeito é zero”, adverte ele. Segundo Galesso, a aplicação da toxina é apenas mais um componente do processo de recuperação. “Ela não é uma substância milagrosa. Sozinha, não vai fazer ninguém voltar a andar”, revela.
Segundo o neurologista, a toxina botulínica atua na junção entre o nervo e o músculo. Em caso de lesão, o nervo “manda um comunicado” para o músculo contrair, o que deixa o músculo duro. A toxina consegue bloquear esse “diálogo”, deixando o músculo mais relaxado.
Ele lembra que em determinados casos, quando a lesão é muito grave, a ponto de provocar fraqueza muscular no paciente, o tratamento com “botox” não faz efeito. Galesso deixa claro que o tratamento não atua na lesão, mas em seus efeitos. “A lesão é no cérebro. Nós atuamos no músculo, que é o periférico”, comenta.
A importância de relaxar o músculo, segundo o neurologista, é que se ele ficar muito tempo rígido as articulações começam a deformar. Os nervos ficam endurecidos e isso provoca dor, além de dificultar nas tarefas básicas, como colocar uma roupa, por exemplo.
O HEB mantém convênios com entidades como a Sorri e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru para tratamentos à base de toxina botulínica. Uma equipe multidisciplinar, composta por fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudióloga, psicólogo, assistente social e enfermeiros, examina os pacientes, encaminha ao hospital e acompanha a evolução do tratamento.
As pessoas que sofrem com as seqüelas do AVC ou qualquer outra lesão cerebral ou acidente que limita os movimentos de alguma parte do corpo e não fazem parte das entidades conveniadas com o HEB também podem ser beneficiadas. Para isso é preciso pedir encaminhamento no posto de saúde para o Hospital Estadual de Bauru.
São feitas, em média, cerca de dez aplicações por semana em Bauru. Além de Galesso, também trabalham com a aplicação de toxina botulínica no HEB os ortopedistas Luiz Antônio Pelegrino e Adriano Camilo. Ambos, especialistas em tratamento com crianças.
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Técnica chegou a Bauru há dois anos
O uso terapêutico da toxina botulínica, substância popularmente conhecida como “botox”, começou há cerca de 20 anos nos Estados Unidos. Pouco depois, chegou às clínicas e hospitais do Brasil. No entanto, a novidade só passou a ser utilizado em Bauru há cerca de dois anos.
A demora se deveu, segundo o neurologista Adriano Galesso, pela falta de profissionais habilitados para esse tipo de serviço. De acordo com ele, a aplicação em si é fácil. O problema é avaliar corretamente o paciente e identificar os músculos que precisam ser trabalhados com a toxina. “Se aplicar errado pode até piorar o quadro”, revela o neurologista.
A ação do “botox” dura em média seis meses, segundo Galesso. Dependendo do caso, a duração pode levar menos ou mais tempo. Depois desse período, podem ser feitas outras aplicações, mas é preciso um intervalo mínimo de três meses entre uma e outra.
“Posso reaplicar muitas vezes e por muitos anos. Nesses quase 20 anos, não fiquei sabendo de nenhum relato de que o uso da toxina botulínica tenha gerado algum distúrbio no paciente”, comenta Galesso. Em pacientes com quadros menos graves, uma ou duas aplicações podem ser suficientes.
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Múltiplas funções
O tratamento com “botox” é indicado também para quem tem transpiração excessiva nas mãos, pés e nas axilas. A toxina ajuda a diminuir a produção de suor. Quem saliva demais é outro candidato a ter o “botox” como grande aliado. Quando aplicado nas glândulas salivares, ele diminui a produção de saliva.
Da mesma forma, a substância pode ser muito útil no controle da incontinência urinária. Segundo o neurologista Adriano Galesso, a incontinência ocorre porque a bexiga contrai com muita facilidade, expelindo assim a urina sem que a pessoa tenha vontade. Ao aplicar a toxina no músculo da bexiga, é possível provocar um relaxamento e interromper a incontinência.
A substância é indicada até mesmo para quem sofre com hemorróidas. Enfim, a toxina botulínica, segundo o neurologista, pode ser utilizada em diversas áreas da medicina com sucesso. Lembrar dela apenas como uma simples corretora de imperfeições estéticas é limitar demais seu potencial.
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O início
A toxina botulínica é uma proteína de origem biológica. O primeiro uso desta sustância de forma terapêutica foi feito nos anos 60 por Allan B. Scott, em testes em macacos. E somente em 1980, os testes começaram a ser feitos em humanos, para o tratamento de estrabismo.
Porém, foi somente em 1989 que ela foi registrada e seu uso foi aprovado a oftalmologistas, para o tratamento de espasmos involuntários da musculatura das pálpebras, estrabismo e distonias. Os médicos perceberam, então, que a toxina botulínica também tinha efeito sobre as linhas de expressão do rosto, diminuindo ou amenizando as marcas na face e evitando cirurgias plásticas.
O estudo continuou em expansão e, por volta de 1990, voltou-se para outras áreas, como a neurologia, por exemplo, quando constatou-se sua eficiência no tratamento de distúrbios musculares involuntários.
Existem sete subtipos desta neurotoxina (de A até G) cujo subtipo A é o mais utilizado e comercializado. Os dois nomes comerciais mais fortes do mercado que comercializam esse tipo de produto são o Botox e o Dysport. (Da Redação)
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‘Sou independente para quase tudo’
O operador de máquinas João Carlos dos Santos, 55 anos, recebeu a primeira aplicação de toxina botulínica em setembro do ano passado e está feliz da vida com o resultado alcançado. Segundo ele, a movimentação melhorou bastante e, com o auxílio das sessões semanais de fisioterapia de que participa na Sorri, já consegue fazer muita coisa sozinho. “Hoje, apesar do meu estado, sou independente para quase tudo”, comemora.
No fim de 1996, João Carlos sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Ele relata que o derrame afetou sua coluna e os músculos foram se atrofiando com o tempo. Atualmente, ele só se locomove com a ajuda de uma cadeira de rodas.
Aos poucos, João Carlos foi retomando seus movimentos, principalmente quando iniciou as sessões de fisioterapia e, agora, com a aplicação de toxina botulínica. Ele conta que a aplicação é dolorida, mas o resultado é tão satisfatório que compensa qualquer dor. As “picadas” são feitas na panturrilha e no lado de dentro da coxa de João Carlos. “É meio dolorido, mas vale a pena.”
De um modo geral, os resultados alcançados pela aplicação de toxina botulínica em pessoas com dificuldades para se movimentar têm sido “excelentes” na avaliação da fisioterapeuta Valéria Gomes da Silva Oliveira, 33 anos.
Ela acompanha os pacientes na Sorri e a recuperação, segundo ela, sempre avança mais rápido quando utilizado o “botox”. No entanto, o tempo da resposta é relativo. “Tem pacientes que apresentam resultados positivos logo na primeira semana. Outros demoram um pouco mais até conseguir um relaxamento do músculo”, relata Valéria.
Ela conta que a toxina facilita a troca de passos, a caminhada do paciente, porque “libera o pé”, ou seja, deixa a musculatura menos rígida, o que favorece a movimentação.