Politicando

Maracujá


| Tempo de leitura: 1 min

A favela concretiza o desejo humano pelo conforto da urbanização. Ao contrário de Jânio Quadros, que se gabava de ter erradicado uma favela da noite para o dia, dom Helder Câmara, no Rio, e os governadores Montoro e Mário Covas, em São Paulo, se preocuparam mais com sua humanização. Trabalhando no pronto-socorro das grandes cidades é normal que os médicos atendam a casos de favelados. A população de uma favela, em sua grande maioria, é constituída de pessoas boas e trabalhadoras. É claro que, como em todo lugar, há as exceções. Certa vez fomos chamados para atender a um caso de histeria, daqueles em que a pessoa parece estar morta e os familiares se desesperam. O que causou estranheza foi a recepção que tivemos. Um cidadão, com um revólver à cintura, foi direto ao assunto:

- Se minha mulher morrer, vocês irão juntos!

- Tomarão banho de mar no Pepino, de roupa e tudo! – disse um acompanhante, com um riso maroto.

Felizmente o caso era um pitiatismo de Babinsky, como denominamos aqueles em que o paciente, por algum motivo emocional forte, se apresenta desmaiado, parecendo morto.

O médico plantonista me solicitou o amoníaco da maleta, encharcou com ele um chumaço de algodão e o colocou rente às narinas da paciente. A moça resistiu por alguns segundos, mas depois empurrou o amoníaco para longe e saiu de imediato daquela aparente perda de consciência. Já estávamos a guardar os instrumentos na maleta, desejosos de voltar para a ambulância, quando o indivíduo nos retém e diz para o ajudante:

- Pegue uns maracujás lá no fundo. Os doutores vão precisar. Eles parecem meio abafados...

- Maracujá é bom! - disse o outro, saindo. - Acalma até praga de sogra!...

Contada por Rui Bertoti

Comentários

Comentários