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Vida fora da Terra: chance é grande

Herton Escobar
| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - As discussões sobre vida fora da Terra sempre tiveram a matemática como ponto forte. O universo tem “x” bilhões de galáxias, “x” bilhões de estrelas e “x” bilhões de planetas, “x” porcento dos quais são potencialmente habitáveis. Estatisticamente, portanto, a chance de haver vida em outras partes do universo é grande, ainda que nossas chances de fazer contato com ela sejam pequenas. Os planetas extrasolares mais próximos estão a trilhões de quilômetros da Terra, o que significa que seria necessário viajar por vários anos à velocidade da luz para chegar até eles.

Mas talvez não seja preciso ir tão longe nem fazer tantos cálculos. Descobertas recentes sobre a presença de água em Marte e sobre formas de vida microbiana na Terra estão abrindo os olhos dos cientistas para a possibilidade de encontrar vida extraterrestre aqui mesmo no sistema solar. Antigos roteiros de ficção científica, estrelados por homenzinhos verdes e discos voadores, deram lugar a uma ciência de verdade, a astrobiologia, estrelada por micróbios superpoderosos, capazes de viajar pelo espaço agarrados a grãos de poeira e de sobreviver em ambientes tão inóspitos quanto água fervente e ácido sulfúrico.

“Acho que estamos na iminência de descobrir algo no sistema solar”, aposta o astrofísico Eduardo Janot-Pacheco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo. Ao mesmo tempo em que robôs passeiam pela superfície marciana em busca de água, cientistas percorrem ambientes inóspitos na Terra à procura de extremófilos, organismos que vivem em condições extremas, potencialmente semelhantes às de alguns ambientes extraterrestres. Estão descobrindo que a vida é muito mais resistente, flexível e abundante do que se imaginava.

Microrganismos (bactérias, arquéias e outras formas minúsculas de vida) estão por toda parte: dentro de rochas, no interior de geleiras, debaixo da calota polar, nos desertos mais áridos e nas fossas mais profundas do oceano, dentro de vulcões, no interior quente e radioativo da crosta, em jazidas de petróleo, depósitos de lixo nuclear, rios de água fervente. Aparentemente, não há lugar que seja desconfortável demais para um micróbio.

E se há organismos que vivem nessas condições na Terra, a expectativa é que haja organismos capazes de fazer o mesmo em outros lugares do sistema solar. Marte é o candidato número um, seguido de Europa, uma lua de Júpiter que pode ter mais água líquida do que a Terra, e Titã, uma lua de Saturno repleta de moléculas orgânicas.

“Não seria uma surpresa hoje se encontrássemos um extremófilo em Marte”, diz o astrofísico Carlos Alexandre Wuensche, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Baseado em tudo o que conhecemos sobre a vida, é uma aposta que não é absurda.”

Receita básica

A água é o “solvente universal” da vida. Cerca de 70% do nosso corpo é feito dessa molécula, e mesmo os extremófilos mais radicais dependem dela para sobreviver. Mas isso é o que não falta no universo - muito menos no sistema solar. Desde que os robôs Spirit e Opportunity da Nasa pousaram no solo marciano, em janeiro de 2004, os cientistas vêm acumulando evidências diretas de que Marte já foi um planeta cheio de água. Sua superfície está repleta de cânions, margens secas, deltas e bacias sedimentares que denunciam um passado “molhado”.

“Marte já foi um planeta habitável, sem dúvida”, disse à reportagem o geólogo John Mustard, da Universidade Brown, nos EUA. Ele é autor de um estudo publicado na revista “Nature”, segundo o qual Marte tinha água líquida em abundância até 3,8 bilhões de anos atrás - no mesmo período em que a vida começou a se desenvolver na Terra.

“Será que já houve vida em Marte? É provável que sim”, avalia Mustard. “Será que há vida hoje em Marte? É provável que não”, completa o pesquisador, menos otimista. Ele calcula que essa “janela de habitabilidade” tenha durado 200 milhões de anos - principalmente no subsolo de Marte, mas também na superfície, conforme a disponibilidade de água líquida.

“Marte foi uma espécie de ‘fogo de palha’, que fez tudo e perdeu tudo rapidamente”, diz o astrônomo Enos Picazzio, do IAG-USP. O planeta é pequeno demais para manter uma atmosfera, por isso a maior parte de sua água evaporou no espaço. Mas não toda. Uma parte permanece congelada nos pólos e misturada ao solo, formando uma espécie de permafrost, que agora está sendo estudado pela sonda Phoenix. Na quinta-feira, a Nasa anunciou que o robô “provou” a água de Marte pela primeira vez, aquecendo-a dentro de um forno.

“Se há água, a possibilidade de vida existe”, avalia Picazzio.A temperatura média na superfície de Marte é -60ºC, aproximadamente, mas em alguns pontos de sua órbita (mais próximos do Sol), os termômetros marcam acima de 20ºC, o que pode transformar parte do gelo em água líquida. “Na superfície, Marte é um ambiente inóspito, mas há condições subterrâneas que podem ser bastante favoráveis para extremófilos”, diz a pesquisadora Claudia Lage, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os solos congelados da Terra estão recheados de vida. Tanto nas camadas superficiais, que descongelam no verão, quanto nas inferiores, permanentemente congeladas, onde organismos podem permanecer dormentes por milhões de anos.

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