Mais de 37,7 quilos de pasta de crack foram apreendidos pela Polícia Militar (PM) na manhã de ontem no Centro de Bauru. A droga estava dentro de um Gol, com dois homens de Guaíra - a 296 quilômetro de Bauru, na região de Barretos. Se vendida no atacado, a droga poderia render R$ 1,6 milhão – o preço do grama da droga equivale ao do ouro, que ontem estava cotado em R$ 43,90. No varejo, a droga poderia render ainda mais, já que à pasta pura poderiam ser adicionadas mais substâncias que aumentariam a quantidade de droga a ser fracionada.
Segundo a polícia, um grama de crack costuma render três porções e cada uma delas é vendida a R$ 10,00. No quarto do hotel onde a dupla flagrada com a droga se hospedava, a PM localizou 45 pedras preciosas. A apreensão ocorreu depois que a PM recebeu denúncia de que dois indivíduos estavam ao lado da linha férrea, na altura do viaduto inacabado, colocando sacos pretos dentro de um Gol verde.
Em patrulhamento pela área, a equipe da Base Comunitária Centro localizou o veículo, na altura da quadra 3 da rua Alfredo Ruiz. No carro onde estavam Enéias Silva Souza e Dênis Sandres Rudregues dos Santos, ambos 35 anos, foram encontrados três sacos pretos no banco traseiro.
Ao serem questionados, eles inicialmente informaram que seriam comerciantes e que transportavam roupas como mercadorias. Porém, os policiais revistaram os sacos e encontraram 98 invólucros cilíndricos de plástico cinza cheios de pasta de crack.
Presa, a dupla informou aos policiais que estava hospedada em um hotel da região central de Bauru. No quarto onde estavam acomodados, foi encontrada uma maleta com 45 pedras em estado bruto – aparentemente uma hematita, 10 diamantes pequenos e 34 esmeraldas. Com os dois também foram localizados R$ 2,34 mil em dinheiro, três celulares e dois livros em espanhol: o Código Civil Boliviano e Notícias de um Seqüestro, de Gabriel García Marquez.
Os dois homens foram levados ao Plantão Policial, onde foram ouvidos pelo delegado Ronaldo Divino Ferreira. Sem divulgar os nomes dos envolvidos, o delegado informou que em depoimento um deles contou que iria transportar a droga para São Paulo. Ele teria marcado com uma pessoa, que não informou o nome, o recebimento do entorpecente.
Ele receberia R$ 15 mil por transporte de drogas e faria o "serviço" uma vez por mês em locais diferentes - não seria a primeira vez que fazia o “trabalho” em Bauru. Ao delegado, ele teria dito que a droga se tratava de pasta de cocaína. Porém, o laudo pericial determinou que o produto apreendido é crack.
Sobre as pedras preciosas, o homem preso informou que as estaria levando para serem avaliadas na Capital, já que estava pensando em mudar de ramo de atuação. O delegado afirmou que o outro homem preso teria negado a participação no tráfico e estaria apenas dirigindo o carro. Mas de acordo com Ronaldo Divino, também foi autuado em flagrante. “Ele alegou que desconfiava que tinha alguma coisa errada. Então, se tinha alguma coisa errada, abandona, não faz. E o outro disse que ele sabia”, explica.
Os dois foram presos em flagrante por tráfico de drogas e seriam encaminhados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru. Se condenados, podem pegar até 15 anos de prisão.
Investigação
De acordo com o delegado seccional Doniseti José Pinezi, o caso será encaminhado para a Delegacia de Investigação sobre Entorpecentes (Dise). “Se ficar constatado que se trata de tráfico internacional de drogas, o caso será encaminhado à Polícia Federal”, explica o delegado, se referindo à localização de papéis referentes a Bolívia com a dupla.
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Linha férrea
Sobre como a droga chegou a Bauru, fontes consultadas pelo JC não descartam o uso de trens. Uma delas lembrou que na década de 70, no auge dos trens de passageiros, o meio ferroviário era usado para tráfico. Mas como atualmente os trens que passam por Bauru transportam apenas carga, haveriam duas possibilidade para a droga ter chegado à cidade pela ferrovia: os traficantes terem arremessado os 37,7 quilos de crack nas locomotivas em algum trecho e as resgatados em Bauru. A outra é a participação de funcionários da ferrovia.
Por meio de sua assessoria de comunicação, a América Latina Logística (ALL) informou que não tinha sido procurada pela polícia para averiguar as hipóteses. Porém, iria acionar a empresa que faz a segurança da área verificar se existe essa possibilidade. A ALL informa que nas composições atuam apenas um maquinista e um ajudante e que não há relatos de tráfico usando trens na região de Bauru desde que a empresa assumiu a concessão dos ramais.
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Droga daria 113 mil porções
Se os 37,7 quilos de pasta base para crack fossem divididos em pedrinhas para venda no varejo poderiam render 113 mil porções e mais de R$ 1 milhão. O cálculo foi feito com base em informações apuradas pelo JC de que a pedra de crack geralmente tem 300 miligramas. Portanto, um grama rende três pedrinhas.
Cada pedrinha é vendida a R$ 10,00. Se os 37,7 quilos fossem fracionados em partes iguais, de pedrinhas de 300 miligramas, e vendidas neste valor, renderiam bem mais de R$ 1 milhão.
Até pelo valor da “carga” apreendida, fontes consultadas pelo JC acreditam que a droga seria mesmo encaminhada para um grande centro consumidor, como a cidade de São Paulo. E, pelos mesmos motivos, provavelmente várias pessoas estejam envolvidas no esquema, em todas as suas etapas, do transporte à comercialização ao usuário, passando por traficantes intermediários.