É interessante observar como mudamos, algumas vezes, a maneira de encarar os fatos. Isso não é motivo para aborrecimento. Grandes cérebros já mudaram seus pontos de vista e nem por isso deixaram de continuar recebendo ovações e reconhecimento. O próprio Walt Whitman deixou escrito: “Eu me contradigo?/ Pois muito bem, eu me contradigo,/ Sou amplo, contenho multidões.” Eu, por exemplo, que sempre exaltei os esportes, que botei sempre um bocado de ênfase nas Olimpíadas, não sei mais se continuo pensando como antes. Mas, não se assustem, não estou aqui para derriçar essa competição característica dos gregos da Antigüidade, esses mesmos gregos que aprendi a admirar tanto, mas, tanto mesmo, que, enquanto não realizei o sonho de conhecer parte daquela cultura “in loco”, não me dei por vencida.
Não vou me esquivar de dar meu parecer sobre esses jogos, mas, antes, quero tecer umas poucas considerações sobre o êxtase que acompanha o indivíduo tanto em momentos místicos como também em muitos momentos do cotidiano. Há que se falar, por exemplo, no êxtase da ira, no êxtase da velocidade ao volante, no êxtase nos estádios de futebol e também no êxtase do atleta quando ganha a medalha olímpica. E que é o êxtase? Milan Kundera discorre magnificamente sobre o assunto: o êxtase é a identificação absoluta com o momento presente, o esquecimento total do passado e futuro. O êxtase significa estar “fora de si”, segundo a etimologia da palavra grega, a ação de sair de sua posição (“stasis”). O que não significa que a pessoa em êxtase saia de si para evadir em direção ao ontem ou ao amanhã. Exatamente o contrário. Tomemos, então, o caso do medalhista olímpico que, ao alcançar o cobiçado prêmio, identifica-se por inteiro com o momento presente. Em êxtase com a conquista, naquele momento, ele não está nem um pouco preocupado com o passado nem projetando nada para o futuro. Apagados o passado e o futuro, no instante em que ganha uma prova, o atleta cai no espaço vazio do momento presente, fora da cronologia, fora da vida. Não confundir esse estado emocional, que brota espontaneamente e em virtude de um mecanismo natural do organismo, com comportamentos provocados artificialmente por substâncias químicas.
Muitos de nós já tivemos momentos de êxtase na vida. Acontece que, no meu modo de entender, alguns desses momentos quase sempre vêem associados com a idéia de poder. O êxtase da ira, acaso, não estará associado ao desejo de vingança, criando a impressão que o irado poderá sobrepujar quem o amargurou? O êxtase da velocidade ao volante e nos estádios de futebol também não revelam desejo de poder, de brilho, de dominação? Não posso pensar de modo diferente a respeito do êxtase do medalhista olímpico, que também está, sim, associado ao poder, à glória. Infelizmente, o jovem ou a jovem que busca a medalha nem sempre está preocupado com a perfeição do corpo, com a valorização do nome do país que defendem, senão secundariamente; estão, sim, precipuamente, interessados em fama, em poder, em potência. E você, eu, nós, quando torcemos por eles estamos nos identificando, nos projetando neles para tirarmos uma lasquinha dessa glória. Se não, por que estaríamos torcendo por eles?
Como disse Leonardo Boff, todos nós fomos educados nesta escola de faraós, uma escola perversa que tudo pensa em termos de poder, chave de nossa cultura. Do poder como superioridade. A alma disso tudo é a vontade de potência, que nos faz cegos e surdos para a beleza das coisas, como, por exemplo, para o canto de um pássaro que, ocasionalmente, pousa em nossa janela, ou para a beleza de uma pequenina flor que insistiu teimosamente em nascer numa fenda do quintal. Inversamente, poderá mesmo até acontecer que fiquemos irritados com o canto do bem-te-vi ou que arranquemos com impaciência a plantinha infiltrada entre as pedras de nosso jardim. É que estamos esquecidos de nossa centralidade, essa centralidade que, para os que têm fé, é Deus, para os que não têm é seu eu profundo, seu centro, não importa a forma o nome que lhe dermos.
Conectando o êxtase ao poder, e associando esse desejo de poder a quem se determina obter uma medalha olímpica ou a subir ao pódio, sei que estou deslustrando a festa, a pompa e a pretensa inocência que cercam esses eventos, e outros similares, tão ansiosamente esperados no planeta inteiro. Mas, como nem tudo que parece é, pelo menos para mim, todos os competidores desta e de todas as Olimpíadas passadas, presente e futuras almejam nada mais, nada menos, que brilho, projeção, destaque... É assim que vejo a luta por uma medalha! Não tenho a pretensão de que o leitor concorde comigo.
A autora, Maria da Glória De Rosa, é professora doutora e colaboradora de Opinião - mgderosa@uol.com.br