O que o leitor deve saber antes de assistir a “U2 3D”, que estréia hoje no País, inclusive na sala 4 do Multiplex Bauru Shopping, é que o filme é um show e apenas isso. Não tem entrevistas nem cenas de bastidores, não há as intrigas de “Some Kind of Monster”, sobre o Metallica, ou as curiosidades e cenas raras de “Shine a Light”, com os Rolling Stones.
Entretanto, “U2 3D” é melhor editado do que o DVD “Vertigo 2005 - Live From Chicago”, apesar desse último ser mais longo, com mais músicas. Além disso, ver Bono, Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton em uma tela de cinema, com som de alta qualidade, é uma experiência que vai dar aos fãs um gostinho - digamos, 15% - do que seria vivenciado num estádio como o Morumbi, um dos lugares onde o filme em 3D foi registrado - há ainda cenas de Buenos Aires, na Argentina, Santiago, no Chile, e na Cidade do México, no início de 2006.
Talvez os 15% calculados acima seja pouco, já que um fã normal não teria possibilidade de ver o palco da turnê “Vertigo”, em toda sua amplitude, ao mesmo tempo em que sobrevoa o show, assiste a detalhes da performance de cada um dos integrantes do U2 a poucos metros de distância, acompanha sua movimentação pelas duas passarelas, de encontro ao público, e sente a vibração dessa que é, atualmente, a maior banda de “rock de estádio” do planeta.
No repertório, estão músicas dos trabalhos mais recentes do U2, como “Beautiful Day”, “Love and Peace or Else”, “Vertigo” e “Sometimes You Can’t Make It On Your Own”, e clássicos como “Pride (In the Name of Love)”, “New Year’s Day”, “Sunday Bloody Sunday”, “Miss Sarajevo”, “Where the Streets Have No Name”, “With or Without You”, “Bullet the Blue Sky” e “One”.
Agora, sobre o 3D - que deveria ser realmente o diferencial. Segundo o material de divulgação do filme, os shows foram inteiramente filmados com 18 câmeras de última geração, de tecnologia digital 3D (três dimensões). O meio de filmagem utilizado pela 3ality Digital utiliza um controle interno de movimentação da câmera e processamento de imagens em tempo real, que elimina imperfeições que maculavam os filmes em 3D feitos com câmeras analógicas.
Decepção
Na prática, para quem assiste a “U2 3D” esperando um mergulho quase real em um show do U2, é uma grande decepção. É possível contar em uma mão os momentos em que a banda realmente interage com as câmeras ou quando há elementos que “saem da tela” - afinal, é disso que é feita a experiência 3D, não?
Obviamente, a sensação de profundidade existe ao longo dos 90 minutos. Porém, o que há, no filme todo, são as mãos do público se agitando no ar, garrafinhas de água que voam para o alto e uma ou outra passada de guitarra ou baixo na direção das lentes.
Em somente uma música, “One”, Bono canta diretamente para a câmera. E apenas em “The Fly”, a penúltima canção do show, as palavras e frases exibidas no gigantesco telão são projetadas em 3D.
“U2 3D” tem direção de Catherine Owens e Mark Pellington. Ela havia sido diretora de conteúdo visual das turnês “ZooTV”, “PopMart”, “Elevation” e “Vertigo”, e fez o videoclipe de “Original of the Species”; Pellington dirigiu um dos clipes de “One” (a versão com o búfalo e as flores, não o filmado em Berlim) e filmes como “O Suspeito da Rua Arlington” e “A Última Profecia”.
“Bono achava que, se íamos fazer esse projeto, tínhamos que fazer na América do Sul, já que a presença da banda depois de um hiato de oito anos no continente era garantia de públicos vibrantes e entusiasmados”, explica o produtor Peter Shapiro.
Em cada cidade da turnê, a equipe filmou a banda de forma diferente: no México, os equipamentos foram montados para tomadas a grandes distâncias, enquanto no Brasil, as câmeras fizeram imagens a distâncias médias. Em Buenos Aires, além dos dois shows, a banda fez uma apresentação de dez músicas, sem público, para que os diretores filmassem “closes mais íntimos”. Foi a solução encontrada para ter boas imagens sem atrapalhar a experiência dos fãs que estavam nos shows.
No final das contas, a proximidade das câmeras, que revelam a interação entre os músicos, em especial, e o som de “U2 3D”, que envolve completamente a platéia, são os grandes destaques do filme. Não há como negar que “Pride” ou “With or Without You” ainda arrepiam. Mas o cinema - 3D ou não - ainda está longe de substituir a experiência do show ao vivo.