O supervisor de vendas Leandro Guerreiro ainda se diverte quando lembra do episódio. Há quatro meses, ele conta que foi a uma farmácia comprar um remédio e, ao receber o troco, que seria de R$ 1,25, recebeu uma... camisinha. Sem troco, essa foi a alternativa encontrada pelo estabelecimento para “não deixar o cliente no prejuízo”. “Às vezes eu conto e ninguém acredita. Mas é claro que não aceitei. Dinheiro é dinheiro e eu exigi o meu”. Encontrar moedas de valores diversos e cédulas de R$ 1,00 é uma tarefa cada vez mais difícil no comércio.
Depois de muita conversa, o farmacêutico responsável foi ao estabelecimento comercial mais próximo para efetuar o troco. “Ele não tinha nota nem moeda de R$ 1,00 e também de R$ 0,25”, esclarece o consumidor, que fez valer o seu direito - e obrigação da empresa - de receber o troco em dinheiro.
O fato ocorrido com o supervisor de vendas é cada vez mais comum no comércio de Bauru. Com poucas moedas e cédulas de R$ 1,00, os comerciantes se vêem em situação delicada no momento de devolver o troco para o consumidor. Neste momento, entram em cena balas, chicletes, doces e até camisinha.
Mas de acordo com o Procon, órgão de defesa do consumidor, os estabelecimentos comerciais têm a obrigação de dar o troco exato ao consumidor. Quem se sentir prejudicado, pode se recusar a receber mercadorias no lugar do troco em dinheiro e registrar reclamação no Procon.
Jorge dos Santos Machado é gerente de uma lanchonete localizada no Calçadão da rua Batista de Carvalho. Ele afirma que a dificuldade com troco é constante. “As pessoas deixam as moedas guardadas em casa e acabam atrapalhando bastante”. Segundo o comerciante, as cédulas de R$ 1,00 desapareceram. “Hoje é tudo moeda, mas o medo de moeda falsa é muito grande”, afirma.
“As pessoas estão segurando dinheiro em casa.” Ele mesmo afirma que já sofreu com a falta de opções na hora do troco. “A gente dá uma balinha, um chicletinho e um sorriso amarelo para as pessoas aceitarem”, brinca.
Há dez anos trabalhando como gerente de uma loja cujo preço médio dos produtos é de R$ 1,99, José Carlos Zaratine diz que sente o peso da falta de notas de R$ 1,00. “As poucas que encontro estão esfarelando e todas são sujas. Sumiram da praça”.
Para fornecer o troco, ele conta com a compreensão do cliente, embora isso nem sempre seja possível. “Saímos no prejuízo, pois o cliente não irá aceitar receber o troco em balas e chicletes”. Ele acredita que a população está guardando notas e moedas de baixo valor. “Recebemos aqui muitas senhoras com sacolinhas cheias de moedas. Moeda de R$ 1,00 não consigo nem em banco”.
Segundo informações da assessoria de imprensa do Banco Central (BC) do Brasil, o órgão não fabrica notas de R$ 1,00 desde 2006. O motivo é simples. Enquanto uma cédula de baixo valor dura, em média, 13 meses, uma moeda tem durabilidade média de 25 anos. O custo de produção de cada moeda de R$ 1,00 é de R$ 0,26. Há dois anos, a fabricação da cédula de mesmo valor era de R$ 0,12.
As cédulas de valores mais elevados, como a de R$ 50,00, duram, em média, de 24 a 28 meses, chegando a 36 meses a durabilidade média de uma nota de R$ 100,00.
Além da cédula de R$ 1,00, que deixou de ser fabricada, o BC suspendeu, em 2004, a fabricação de moedinhas de R$ 0,01. Mas elas não saíram de circulação e sua fabricação pode voltar se o BC entender que estão fazendo falta. No momento, existem mais de três bilhões de moedas de R$ 0,01 em circulação, quantidade que o BC considera suficiente.