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A política e a cidadania


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Na média, o eleitorado brasileiro “desperdiça” do seu potencial de decidir pelas urnas, algo em torno de 26%, representados pela abstenção (17%), voto em branco (3%) e votos nulos (6%). São os cidadãos desiludidos com o processo de escolha e que acreditam no ditado popular: “Mudam-se as moscas, mas a podridão (para ser mais elegante) continua a mesma”. Há fortes razões para agir assim.

Tudo que depende do homem está sujeito a erros, equívocos, acertos, atos honestos e mal intencionados. Faz parte da natureza humana. Mas, não deve servir de desculpa para o conformismo de ninguém. É fundamental, para qualquer trabalho, que as pessoas estejam dispostas a servir às causas a que se propuseram, com competência e boas estratégias. Contudo, isto não garante o sucesso da empreitada.

A forma como as pessoas se organizam para realizar um trabalho, público ou privado, é tão importante quanto a qualidade das pessoas. No mesmo patamar vem o objetivo - “Governar é definir prioridades”. A pavimentação de um bairro que nunca viu um metro de asfalto vai servir à população carente, muito mais que a obra suntuosa que só atende à vaidade do prefeito que quer contar para os seus circunstantes: “fui eu que fiz”. A cidade desenvolvida é a cidade boa de se viver e não a cidade cheia de prédios. Há uma confusão porque se perdeu a visão de que o fim de tudo é o ser humano. Governos não fazem desenvolvimento com obras de fachada. Eles podem, isto sim, induzir e investir na criação de ambientes favoráveis ao desenvolvimento. É muito mais simples e barato. Muitas vezes o prefeito investe até o dinheiro que o município não tem numa determinada obra e não acontece nada. Porque o dinheiro foi mal gasto... Para diminuir o perigo de errar no investimento dos recursos púbicos, os métodos administrativos mais modernos aconselhados pela Comunidade Européia de Nações propõem que se crie uma sinergia entre executivo, legislativo, mercado e povo. Vale para a Zona do Euro. Por princípio, serve para qualquer cidade do terceiro mundo. Um governo que atue em parceria com uma sociedade que seja motivada a pensar em conjunto acabará se surpreendendo com a capacidade de serem criadas novas fórmulas, relações diferentes e mais inteligentes entre os diversos atores. Isto sim pode gerar desenvolvimento.

Em uma democracia, os governantes (pessoas que ocupam os principais cargos dos poderes Executivo e Legislativo) são escolhidos entre a população e não são anjos ou demônios. Nem sábios e nem tolos. São como todos nós, pessoas comuns e boas. Nascemos todos “bons selvagens”, como disse Rousseau. Os maus usos e costumes é que nos deturpam. Todo mundo, no negócio público ou privado, adapta-se rapidamente à cultura (forma de organização) existente no local de trabalho. Se o negócio está mal-organizado e a cultura de não trabalhar e se servir do negócio, em vez de servi-lo, já está instalada, não adianta trocar as pessoas (governantes). As coisas continuarão não dando certo.

Enquanto continuarmos acreditando em salvadores da pátria e terceirizando nossa cidadania, nada mudará. A participação do cidadão, no Brasil, está limitada ao período eleitoral. Se jogarmos o voto fora, a participação é nenhuma. Para que o placar se reverta em prol dos cidadãos, eles devem deixar de ser meros espectadores. Na democracia o jogo político não pode ser privilégio de poucos, mas algo aberto, transparente, participativo. É preciso participar desse jogo. Só com o incremento efetivo dos cidadãos a política deixará de ser um jogo de cartas marcadas.

Mesmo perdidas as ilusões é preciso votar. Escolher pessoas que se enquadrem no perfil cooperativo. Pode ser até que elas nos decepcionem. Não será a primeira vez. Mas é preciso continuar tentando. Pelo voto e pela cobrança. Alguém já disse: “só se aprende a votar, votando”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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