Celeste é uma cineasta principiante muito premiada por seu filme de curta-metragem. Em um curso de cinema, a jovem idealista conhece o crítico e realista Estrela. Apesar de gênios opostos, os dois iniciam um relacionamento extremamente forte. A luta de Celeste para fazer um longa-metragem faz com que Estrela se envolva não somente no difícil trabalho de captação de recursos para fazer cinema no Brasil, mas também cada vez mais na vida pessoal de Celeste.
O filme “Celeste e Estrela”, de Betse de Paula, não apenas retrata a difícil tarefa de fazer cinema em nosso país, mas também nos mostra que nossos ideais e sonhos podem fazer de nossas vidas uma verdadeira obra de arte se formos corajosos o suficiente de lutarmos para que eles se tornem realidade. Platão escreveu em uma de suas obras: “Deus governa todas as coisas, mas o acaso (tyche) e a oportunidade (kairos) com ele cooperam em seu governo dos negócios humanos. No entanto, há um terceiro ponto menos extremista, o de que a arte (techne) também deve ser considerada”.
Em outras palavras, o filósofo grego afirma que as circunstâncias de nosso cotidiano não podem ser compreendidas de uma forma unilateral. Toda situação surge de uma soma de fatores e a arte de viver está justamente em reconhecê-los interagindo ativamente com eles. Para quem acredita em Deus, este ser superior é o primeiro fator de todas as coisas; afinal, Ele é a fonte da vida.
O impulso de vida que flui pelo universo afora veio desta imensa realidade que chamamos de Deus. Com ele começa o círculo que pretendo descrever neste artigo, o qual gostaria de chamar de o “circulo dialético da vida”. Deus é a fonte de “água viva” de um aquário infinito. Os elementos que possuem impulso de vida, sejam eles minerais, vegetais ou animais, estão em movimento e, ao se encontrarem, dão forma ao que vemos em nosso cotidiano. Como em um simples jardim interagem a terra, as diversas plantas, os diferentes insetos e alguns pássaros, na sociedade encontramos a interação econômica, social, moral e religiosa de pessoas e classes sociais.
O mundo se movimenta e ao encontro ou choque não planejado, mas originário de diferentes elementos, podemos chamar de acaso. Muitas coisas inesperadas acontecem em nosso cotidiano, pois a vida, constante movimento, é uma grande incerteza. A sensação de segurança que possuímos, na verdade, se constitui em uma grande ilusão, um mecanismo de sobrevivência, pois a qualquer momento pode nos acontecer algo de bom ou de ruim. Mas se raciocinamos sobre o acaso, ou seja, as diversas situações não planejadas em nosso dia-a-dia, podemos descobrir suas origens, o que elas podem nos ensinar e quais as perspectivas que temos a partir do chamado acaso.
Desta forma, o acaso se transfigura em oportunidade. A vida está cheia de desafios que, se bem aproveitados de forma criativa, podem se transformar em oportunidades para o surgimento de uma nova realidade. A oportunidade surge quando abrimos as portas do acaso para o passado e principalmente para o futuro. Como a vida é movimento, as oportunidades não são eternas e insubstituíveis. Elas fluem e desaparecem. Ao percebê-las, o ser humano não deve deixá-las escapar; afinal, aprendemos muito mais da vida se mergulhamos em suas experiências oportunas.
Porém, o universo não está em movimento simplesmente pela força de Deus, pelo choque dos elementos em movimento no universo (acaso) e pelo surgimento de oportunidades. A realidade é dinâmica também através do fazer humano, ou seja, por aquilo que Platão chama de arte. A arte é todo agir criativo do ser humano que não somente altera o universo, mas oferece ao próprio ser humano a sensação e satisfação de estar realmente vivo. A arte é uma verdade escolhida para se viver. No agir, o ser humano não fica à mercê do acaso e muito menos à espera das oportunidades. Com o impulso de vida dado por Deus, nós, seres humanos, estabelecemos a direção que desejamos ao acaso e criamos nossas próprias oportunidades.
Neste agir criativo do ser humano fecha-se o “circulo dialético da vida”, pois através da livre interação do pensar e do agir podemos elevar a qualidade de nossa vida e, através deste viver ativo, nos aproximarmos de Deus sentindo com mais intensidade a sua presença. A questão primordial para nós está neste agir criativo. Afinal, Deus já fez sua parte, o acaso e a oportunidade fluem constantemente no universo, mas o agir criativo depende de nossa lucidez e vontade. Sem dúvida alguma, muitas vezes não conseguimos realizar através de nosso agir realmente o que almejamos, mas só o fato de conhecermos nosso contexto (acaso), procurarmos novos caminhos de transformação (oportunidades) e nos esforçarmos em agir faz com que nossa vida tenha um prazer revolucionário como toda obra de arte.
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